Com o título “O fim da escala 6×1 e o teste da produtividade brasileira”, eis artigo de Alex Araújo, economista. “Trabalhar menos horas sem perder renda é uma conquista para o trabalhador, mas só se sustenta se a economia aprender a produzir mais valor em cada hora”, expõe o articulista.
Confira:
A proposta de emenda à Constituição que extingue a escala 6×1 foi aprovada pelo Senado em 14 de outubro de 2026 e aguarda promulgação. O texto garante dois dias de descanso semanal remunerado e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas, sem redução salarial, em duas etapas: 42 horas a partir de 60 dias após a promulgação e 40 horas depois de mais um ano. Pense numa padaria de bairro que abre todos os dias: cada funcionário passará a folgar dois dias por semana, mas os clientes continuarão chegando aos domingos.
Multiplicada por milhões de empresas, essa conta explica por que o custo imediato será de reorganização de equipes e turnos, enquanto o efeito de longo prazo dependerá da produtividade, isto é, da quantidade de bens e serviços que a economia produz por hora trabalhada.
No comércio, na hotelaria, nos restaurantes e nos demais serviços presenciais, a presença humana é parte do produto, e por isso a redução da jornada obriga a contratar mais gente, reorganizar escalas ou pagar mais horas extras. O turismo mostra o problema com clareza: a demanda se concentra em temporadas e feriados, justamente quando os trabalhadores também precisam descansar, de modo que fechar mais cedo significa perder faturamento e ampliar a equipe exige dinheiro e mão de obra disponíveis.
Há ainda um grupo menos visível: as empresas que prestam serviços ao poder público, como limpeza, vigilância e manutenção. Seus contratos costumam ter preços fixos, que não acompanham automaticamente as mudanças nos custos trabalhistas. Quando a folha de pagamento sobe e a receita permanece igual, a margem encolhe e o capital de giro fica pressionado, o que torna necessário que a legislação e as cláusulas contratuais orientem reajustes capazes de preservar o equilíbrio entre receitas e custos.
No curto prazo, algumas empresas ficarão mais expostas a pressões sobre margens, preços e capacidade de atendimento. No longo prazo, a automação e a reorganização produtiva poderão aliviar parte dessas pressões, mas não todas, e não da mesma forma entre setores e portes.
A produtividade pode crescer por caminhos conhecidos, como equipamentos modernos, processos reorganizados, trabalhadores mais qualificados, menos desperdício e ferramentas digitais, entre elas a inteligência artificial, que já ajuda a prever falhas em fábricas, estimar a demanda no comércio e automatizar tarefas administrativas em hotéis e restaurantes. É esse ganho que separa dois tipos de custo
que o debate costuma misturar.
O custo de transição, formado por contratações, reorganização de turnos e investimentos, tende a diminuir à medida que a empresa se adapta. A pressão estrutural sobre as margens, que surge quando o preço do serviço não consegue subir e a mão de obra continua sendo o principal insumo, só se dissolve se a produtividade crescer o bastante para compensá-la, e por isso é ela que mostra se o ajuste está
funcionando.
Essa transformação já está em curso, mas de forma desigual. Segundo a pesquisa TIC Empresas, do Cetic.br, divulgada em junho de 2026, a proporção de empresas brasileiras que usam inteligência artificial subiu de 13% em 2024 para 17% em 2025, e entre as grandes foi de 38% para 50%. Comprar equipamentos ou contratar uma plataforma, porém, não equivale a elevar a produtividade, porque o resultado depende
de escolher bem as soluções, integrá-las ao trabalho e treinar as pessoas.
O principal risco é que esse ganho chegue de forma desigual. Uma grande indústria pode financiar equipamentos e dividir o custo do investimento entre várias unidades, enquanto uma pequena fábrica, um restaurante independente ou uma loja de bairro precisa contratar mais gente e investir em tecnologia com um orçamento que raramente comporta as duas coisas. A barreira também é de tempo, de conhecimento técnico e de orientação especializada, e por isso a automação só traz eficiência quando o uso vem acompanhado de preparo.
Por essa razão, acesso a crédito, capacitação profissional e assistência tecnológica podem evitar que a mudança amplie a distância de competitividade entre empresas grandes e pequenas. Quando houver apoio público, ele deve ter critérios claros e buscar resultados que possam ser verificados, como modernização, qualificação e aumento da produtividade.
O fim da escala 6×1 é, assim, um teste da capacidade de modernização da economia brasileira, que precisará conciliar melhores condições de trabalho com a continuidade das atividades, sem ignorar os limites das empresas menores. A sustentabilidade da mudança dependerá menos de quantas horas se trabalha e mais do valor que cada hora é capaz de gerar.
*Alex Aráujo
Economista.