“O cálculo conhecido como payback simples ajuda a entender o tempo de recuperação, mas não considera o valor do dinheiro ao longo do tempo, nem os resultados posteriores à recuperação do capital”, aponta o administrador de empresas Fabiano Mapurunga
Confira:
Comprar uma máquina, abrir uma filial, ampliar uma operação ou aplicar o dinheiro disponível no banco são decisões que disputam o mesmo recurso: o capital da empresa. Embora tenham características diferentes, todas precisam responder a três perguntas: quanto podemos ganhar, o que pode dar errado e quando teremos o dinheiro de volta?
Na avaliação de um investimento, considero essencial analisar retorno, risco e liquidez em conjunto. Uma boa rentabilidade projetada pode perder atratividade quando depende de premissas frágeis ou compromete os recursos necessários para manter a operação funcionando.
O retorno começa com uma conta completa
Imagine uma empresa que pretenda adquirir uma máquina por R$ 240 mil. A expectativa é que o equipamento gere R$ 10 mil mensais de caixa adicional, já descontados os custos operacionais e os tributos associados. Em uma conta inicial, seriam necessários 24 meses para recuperar o desembolso.
Entretanto, a máquina também exige instalação, treinamento e mais recursos para estoques e vendas a prazo. Se essas necessidades acrescentarem R$ 60 mil, o investimento total chegará a R$ 300 mil. Mantida a geração mensal de R$ 10 mil, o prazo de recuperação passará para 30 meses.
Esse cálculo é conhecido como payback simples. Ele ajuda a entender o tempo de recuperação, mas não considera o valor do dinheiro ao longo do tempo nem os resultados posteriores à recuperação do capital. Por isso, deve ser acompanhado de uma análise dos fluxos futuros, da vida útil do investimento e do custo dos recursos utilizados.
A pergunta relevante é quanto dinheiro adicional ficará disponível depois de todos os desembolsos necessários. Aumentar o faturamento, por si só, não responde a essa questão.
O risco está nas premissas
Na situação anterior, os R$ 10 mil mensais são uma expectativa. Dependem de demanda, produtividade, custos e recebimentos.
Se a geração de caixa cair para R$ 6 mil mensais, o prazo de recuperação dos R$ 300 mil aumentará para 50 meses. Uma mudança nas condições da operação acrescentaria quase dois anos à espera pelo retorno.
Antes de aprovar o projeto, precisamos entender o que sustenta suas projeções. As vendas dependem de um único cliente? O equipamento tem assistência técnica acessível? A economia prevista foi testada? Os clientes podem demorar mais para pagar?
Assumir mais risco exige avaliar se o retorno esperado compensa essa exposição. Isso não significa que correr mais risco assegure um ganho maior: o resultado pode ficar abaixo do previsto e incluir perdas. A CVM destaca justamente a necessidade de analisar a relação entre risco e retorno esperado.
Uma prática útil é construir cenários favorável, provável e adverso. Se o projeto só funciona quando tudo acontece perfeitamente, suas premissas precisam ser revistas.
Liquidez é capacidade de cumprir compromissos
Uma empresa pode apresentar lucro e enfrentar dificuldades para pagar salários. Isso acontece porque resultado contábil e disponibilidade financeira têm tempos diferentes.
Considere uma organização com R$ 1 milhão no banco. À primeira vista, parece haver espaço para investir. Porém, se R$ 700 mil estiverem comprometidos com pagamentos anteriores aos próximos recebimentos, e a gestão identificar a necessidade de preservar mais R$ 200 mil para imprevistos, a disponibilidade para novos investimentos será de apenas R$ 100 mil.
O saldo bancário precisa ser interpretado à luz do fluxo de caixa projetado. O Sebrae recomenda esse acompanhamento para assegurar recursos destinados à operação e aos investimentos.
O mesmo cuidado vale para aplicações financeiras. Dinheiro destinado à folha do próximo mês precisa estar acessível no prazo necessário. Uma aplicação com resgate apenas no vencimento pode ser inadequada para essa finalidade, mesmo que ofereça rendimento superior. Liquidez também envolve conseguir transformar o investimento em dinheiro sem aceitar uma perda relevante.
Combinar os três critérios melhora a decisão
Retomando o exemplo da máquina, sua aquisição pode apresentar retorno atraente e, ainda assim, precisar de ajustes para caber na realidade financeira da empresa. Negociar o pagamento, implantar em etapas ou comparar compra e locação são caminhos que merecem avaliação, considerando seus custos e riscos.
Também precisamos acompanhar o investimento depois da aprovação: quanto foi desembolsado, quanto caixa foi gerado e quais premissas mudaram. Esse acompanhamento permite corrigir a rota antes que os desvios se tornem maiores.
Investir bem exige buscar resultados e preservar a capacidade de atravessar períodos difíceis. O capital comprometido hoje precisa contribuir para uma empresa que continue capaz de pagar suas obrigações, atender seus clientes e aproveitar as próximas oportunidades.