“Como tanta gente pode alegar, a menos de uma semana da votação, que não tem opinião formada sobre dois candidatos?” aponta o jornalista Moisés Mendes
Confira:
O eleitor indeciso é como uma obra de arte abstrata. É impossível que alguém o descreva se o indeciso não estiver ali, sendo visto e observado como alguma coisa abstrata. O indeciso se esforça para parecer confuso, porque os outros o confundem, e impõe sua indecisão aos já decididos como ostentação: se você não me entende, alguma coisa está errada com você.
Este indeciso é o personagem de mais uma eleição em que, pelo que temos até aqui, ele não deveria existir. Lula tem meio século de vida pública. Flávio Bolsonaro é herdeiro de um pai que construiu o novo fascismo brasileiro durante décadas e já esteve no poder.
O indeciso não está vacilando de novo diante de Fernando Henrique, Mario Covas, Brizola, Serra, Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva e até de Ciro Gomes. Ele vacila diante de Flávio Bolsonaro. Esse eleitor aparentemente abstrato, que tem vários formatos e cores que cada um enxerga como quiser, esse brasileiro indeciso está diante de um dos mais concretos candidatos da direita em todos os tempos.
Não há nuances ou subjetividades em Flávio Bolsonaro. Flávio é um monolito da extrema direita, com qualidades que poderiam levá-lo a uma conferência em Washington sobre figuras exemplares do fascismo mundial.
E o indeciso não consegue vê-lo como um monolito? O que pode ter mudado o ponto de vista do indeciso sobre o que Flávio representa, na reta final da campanha? O que a entrevista à Globo e o debate com Lula na Bandeirantes acrescentaram de informações capazes de mexer com a cabeça desse indeciso?
Na entrevista a Renata Lo Prete, o indeciso ficou sabendo que Flávio apoiou um projeto que elimina a identificação de cartuchos de munições usadas por forças de segurança. Por que esse apoio a uma ideia, defendida pelo bolsonarismo no Congresso, que torna impossível rastrear balas de fuzis usados por milicianos? Ele não respondeu e não precisa responder.
O indeciso ficou sabendo, no debate com Lula, que Flávio Bolsonaro votou contra um projeto na Assembleia Legislativa do Rio, em 2009, que garantia seis meses de licença-maternidade às servidoras estaduais, com possibilidade de prorrogação por mais três. O projeto foi aprovado por 45 a 1. O único voto contrário foi o de Flávio. Lula perguntou por que foi contra e ele não respondeu. E também não precisa.
O indeciso que não sabia de nada foi informado de que, na condição de advogado, Flávio atuou em 2021 na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar a menina Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, com um tiro de fuzil em Niterói. Por que atuou? Não respondeu.
Acrescente-se a essas informações a notícia de que Flávio Bolsonaro é investigado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro. E que tem vínculos com mafioso das fraudes no INSS. E que era sócio, por cota em empresa secreta, de um avião de Vorcaro.
O indeciso, que segundo algumas pesquisas pode ser agora até 6% do eleitorado, ou mais de 9 milhões de pessoas, depende do que mais para saber quem é Flávio Bolsonaro? O debate na Globo pode definir seu apoio a ele ou a Lula? Um debate, durante pouco mais de duas horas, pode informar o indeciso sobre o que ele ainda não sabe da essência dos dois candidatos?
A escolha difícil do indeciso decidirá a campanha, se ele sair de casa para votar, se escolher um dos candidatos ou mesmo se anular o voto ou votar em branco. O indeciso, a quem os ‘especialistas’ tentam atribuir alguma complexidade, é um chato que pensa ser apenas pernóstico.
Mas pode ser carente e por isso tenta atrair para si a atenção de mais de 90% dos eleitores, inclusive dos que estão decididos a não votar. O indeciso que mora no mundo da Lua é o grande mala desta eleição.
Moisés Mendes
Jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre