Experiência na maior feira do livro do mundo amplia horizontes para autores cearenses, fortalece conexões internacionais e revela o potencial da literatura produzida no Nordeste
Um livro pode atravessar oceanos antes mesmo de ganhar uma tradução, pode despertar a curiosidade de leitores de outras línguas, aproximar culturas e abrir portas que, até pouco tempo, pareciam distantes para quem produz literatura longe dos grandes centros editoriais. Foi com essa perspectiva que uma comitiva de escritores cearenses desembarcou na Alemanha para participar da Feira do Livro de Frankfurt, considerada o maior e mais importante evento mundial do mercado editorial e livreiro.
Realizada de 7 a 11 de outubro de 2026, no centro de exposições Messe Frankfurt, a feira reuniu 236 mil visitantes de 137 países, além de quatro mil expositores e mais de 3.800 eventos. Um universo de possibilidades para quem escreve, publica, edita, comercializa direitos autorais e acredita que a literatura pode conquistar leitores para além das fronteiras.

Entre os cearenses que viveram essa experiência estão a escritora Anna Andrade e o quadrinista e escritor Moacir Fio, finalista do prêmio Oceanos e prêmio Jabuti (assunto desta coluna na semana que vem). Eles integram o grupo de artistas que contou com o apoio do primeiro edital de Circulação e Intercâmbio Cultural do Estado do Ceará, iniciativa que possibilitou a viagem e a participação em atividades de aproximação com o mercado internacional.
A presença desses autores ajuda a compreender a importância de políticas públicas que não apenas financiem a produção artística, mas também criem condições para que ela circule, encontre novos públicos e estabeleça conexões profissionais.
Uma ponte entre o Ceará e o mundo
Para Anna Andrade, participar da Feira do Livro de Frankfurt como escritora foi uma oportunidade especial. Empolgada com a possibilidade de conhecer profissionais do mercado editorial de diferentes países, ela descreve a experiência como um aprendizado constante, tanto na condição de autora quanto na de produtora cultural. “É uma novidade vir como escritora. A feira é um momento de conhecer pessoas do mercado literário do mundo inteiro, e estou mais do que empolgada para saracotear pelos corredores. Cada segundo está sendo um aprendizado como autora e como produtora cultural”, conta.
A circulação internacional permite conhecer outras formas de produzir e comercializar livros, observar tendências e compreender como funcionam os mercados editoriais de diferentes países. Para os autores independentes, esse contato pode representar uma oportunidade de profissionalização e de construção de novas estratégias para apresentar suas obras.
Anna destaca que, mesmo diante das diferenças culturais e linguísticas, a literatura oferece um terreno comum para o encontro. Há experiências, conflitos e sentimentos que aproximam pessoas de realidades distintas. “Debater, levantar questionamentos e compartilhar experiências. No meio independente, há muito o que trocar entre autores, mesmo que seja com um artista de um país distante e com diferenças marcantes”, observa.
A escritora, que transita pela fantasia e pela ficção científica, levou consigo o desejo de apresentar uma produção literária que dialoga com o mercado sem abrir mão das questões que considera importantes. Entre suas obras estão Elegidos e Maria Alee e o Artesão de Robôs, trabalhos que exploram universos ficcionais próprios e permitem abordar dilemas humanos e sociais.
Para ela, a literatura cearense pode encontrar leitores em outros países sem precisar abandonar suas particularidades. “Mesmo que você se depare com um cenário steampunk no sertão nordestino, como é o caso da minha obra Maria Alee e o Artesão de Robôs, os leitores poderão se conectar com a força da protagonista de enfrentar um relacionamento abusivo. Mesmo culturas diferentes e distantes podem compartilhar os mesmos valores”, explica.
É nessa combinação entre identidade e universalidade que a autora enxerga uma das possibilidades de expansão da literatura produzida no Ceará.

Livros que chegam a leitores de outras línguas
A viagem de Moacir Fio também foi marcada por encontros e oportunidades que ultrapassaram os limites da programação da feira alemã. Antes de chegar a Frankfurt, ele passou por Paris, onde participou de um lançamento conjunto com Wilson Júnior, também integrante do coletivo Escambal.
Na ocasião, Moacir apresentou o livro A aranha movediça, enquanto Wilson lançou Fios de ferro e sal. O encontro aconteceu em uma livraria especializada em literatura portuguesa e brasileira, com quatro décadas de atividade.
A presença de leitores franceses interessados em literatura de língua portuguesa tornou a experiência ainda mais significativa.
“Foi uma experiência muito única, de ver um livro que ainda não foi traduzido, obras que ainda estão em português, alcançando leitores que têm interesse pela nossa língua, pelo nosso idioma”, relata.
A experiência mostra que a circulação literária não depende exclusivamente de traduções já disponíveis. Há leitores, pesquisadores e profissionais interessados em conhecer a produção brasileira em seu idioma original, criando oportunidades para aproximar autores e novos públicos.
Em Frankfurt, Moacir participou de reuniões com dois agentes literários europeus que trabalham com literatura latino-americana e conversou com uma editora mexicana. Também visitou o estande brasileiro e aproveitou a ocasião para conhecer melhor o funcionamento do mercado editorial e conversar com representantes ligados ao Prêmio Jabuti, do qual é semifinalista.
A feira, nos primeiros dias, é dedicada aos profissionais do livro. É nesse ambiente que acontecem reuniões, prospecções e conversas sobre possibilidades de publicação e negócios. Para quem chega de uma cena literária independente, esses encontros representam uma oportunidade de compreender os mecanismos que fazem uma obra circular internacionalmente.

Conhecimento compartilhado, oportunidades multiplicadas
Integrante do coletivo Escambal, Moacir também participou da viagem com o interesse de conhecer alternativas para a produção de livros independentes. Enquanto ele buscava contatos com agentes literários e editoras, Wilson Júnior conversou com gráficas, incluindo empresas chinesas, para conhecer possibilidades de produção com qualidade e custos mais acessíveis.
O grupo pretende compartilhar os aprendizados obtidos na feira, inclusive por meio de transmissões ao vivo e de encontros com interessados no mercado editorial. Moacir também mencionou a intenção de promover conferências na Biblioteca Pública do Estado do Ceará para conversar sobre a experiência e esclarecer dúvidas de outros escritores.
A ideia é fazer com que as informações conquistadas internacionalmente não fiquem restritas a quem viajou.
“Nosso interesse, de fato, é facilitar o acesso aos escritores cearenses a essas oportunidades internacionais”, afirma.
O relato aponta para uma dimensão importante das políticas de mobilidade cultural: o investimento público pode gerar benefícios que ultrapassam os participantes diretamente contemplados, desde que as experiências, os contatos e os conhecimentos adquiridos sejam compartilhados com a comunidade artística.
Ao avaliar a presença cearense em Frankfurt, Moacir considera que a comitiva teve uma participação proveitosa, marcada por conversas, contatos e possibilidades que ainda poderão se desenvolver depois da viagem.
Ele também percebeu interesse pela nova literatura brasileira e acredita que um investimento maior na internacionalização é fundamental para ampliar sua presença no exterior.
Ceará Criativo: circulação para além das fronteiras
A participação dos escritores na feira se relaciona aos objetivos do Programa Ceará Criativo – Programa de Circulação e Difusão da Cultura e das Artes Cearenses, da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult Ceará).
A iniciativa busca fortalecer a economia criativa e projetar artistas, grupos e produções para os mercados nacional e internacional. Com ações que abrangem música, literatura, artes visuais e artes cênicas, o programa está organizado em três eixos: Plataforma de Formação, Plataforma de Negócios e Programa de Mobilidade Artística.
Na área da mobilidade, a proposta combina chamadas públicas com ações de mobilidade induzida, apoiando artistas que já possuem conexões com eventos internacionais e promovendo articulações com instituições relevantes para ampliar a presença da produção cearense em circuitos de grande alcance.
No caso da literatura, participar de uma feira como a de Frankfurt significa entrar em contato com um mercado no qual circulam profissionais interessados em publicação, representação de autores, direitos de tradução e comercialização de obras. Nem todo encontro resulta imediatamente em contrato, mas cada conversa pode contribuir para ampliar o repertório, fortalecer redes e identificar oportunidades futuras.
É importante, portanto, olhar para a viagem não apenas como a presença de escritores cearenses em um evento internacional, mas como parte de um processo de construção de caminhos para que a produção local seja conhecida e valorizada em outros territórios.
Uma literatura com sotaque próprio e alcance universal
O que um leitor estrangeiro pode encontrar na literatura cearense? Para Anna Andrade, a conexão começa pelos personagens, suas escolhas, seus conflitos e suas maneiras de enfrentar o mundo. As histórias podem acontecer em cenários fantásticos, distópicos ou inspirados na realidade nordestina, mas continuam capazes de tocar questões compartilhadas por diferentes sociedades.
A identidade local, nessa perspectiva, não limita a obra. Ao contrário, pode ser justamente aquilo que a torna singular.
O desafio está em criar condições para que os livros cheguem aos leitores, que os autores tenham acesso a profissionais do setor e que as oportunidades de publicação e circulação possam se concretizar.
Frankfurt terminou, mas os contatos estabelecidos, os conhecimentos adquiridos e as possibilidades abertas continuam fazendo parte da experiência dos participantes. A viagem também deixa uma pergunta para o futuro: quantas outras histórias escritas no Ceará podem conquistar leitores pelo mundo se houver continuidade no investimento em circulação e intercâmbio cultural?
A literatura cearense tem vozes, imaginação, memória e identidade próprias. Para atravessar fronteiras, precisa também de oportunidades, articulação e políticas públicas capazes de transformar encontros em caminhos duradouros.
E, como todo bom livro, essa história ainda está sendo escrita por TODOS NÓS!