Com o título “Rumo ao Vento”, eis mais um texto de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
“Tudo o que não invento é falso.” (Manoel de Barros)
Confira:
A memória tem o estranho costume de preservar criaturas autênticas e esquecer seus nomes. Com o passar dos anos, os rostos se diluem, as vozes se calam, mas certos gestos continuam vivos. Algumas presenças deixam de existir, mas permanecem.
Vestia-se como uma santa de procissão. Bastava caminhar para transformar uma simples passagem em acontecimento. Carregava a tiracolo o ofício de carpideira. Não como profissão, mas como sina.
Conhecia os zigue-zagues da invenção e os desvãos da realidade. Andava entre ambos com a naturalidade de quem nunca precisou escolher um lado. Não acreditava no tempo. Só existia o instante.
Desconfiava das caridades lucrativas. Gostava de gente simples, marcada pelo sol, pelo trabalho e pela vida. Vivia com urgência, um dia depois do outro.
Chegava sem chamar a menor atenção. Partia deixando todo mundo um pouco mais triste. Ninguém sabia de onde vinha, nem para onde ia.
Caminhava devagar, como se cada passo precisasse raspar o chão antes de prosseguir. Desconhecia a pressa. Andava no compasso de quem sabia escutar os desvalidos. Por onde passava, deixava um pouco da própria luz, feito espelho a refletir claridade, sem nunca se dar importância.
Num bolso do vestido de chita, de feitio modesto e mangas três-quartos, um terço envolvia um missal. No outro, um galhinho de arruda e alguns caroços de romã. Sobre os ombros, caía uma mantilha rendada. Na cabeça, o rumo da venta. No coração, a sorte dos humildes.
Piscava os olhos ao menor sinal das coisas divinas. Sinais celestiais. Rezava: “Meu Deus, clareai os olhos de quem só enxerga a dor. Abrandai o coração dos aflitos. Dai descanso aos cansados e coragem aos desanimados. Livrai-nos da maldade escondida e da bondade amostrada. Fazei brotar o amor em cada casa. Nunca deixeis faltar um pedaço de Céu no peito dos simples. Amém.”
Nunca mais a encontrei. Quem sabe tenha seguido para outras paragens, muito além da minha imaginação. Ou ande por lonjuras, consolando aflitos.
Ainda espero possuir espírito bastante para compreender os segredos da alma humana. Até lá, guardo sua lembrança. Existem pessoas destinadas apenas a passar pela vida da gente. Chegam em silêncio. Partem em silêncio. E nunca mais vão embora.
*Totonho Laprovitera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.