“Dólar e bolsa estão reagindo às mesmas mudanças de expectativas. A alta de um não provoca, automaticamente, a queda do outro”, aponta o administrador de empresas Fabiano Mapurunga
Confira:
Quem acompanha o noticiário econômico já se acostumou com a expressão: “O dólar subiu e a bolsa caiu”. Em outros dias, a notícia aparece invertida. Essa combinação tem uma explicação, mas precisamos começar com uma ressalva: trata-se de uma relação frequente, e não de uma regra.
Quando falamos em dólar subindo, estamos dizendo que precisamos de mais reais para comprar a moeda americana. Já a alta da bolsa costuma ser representada pelo Ibovespa, índice que reúne uma carteira de ações relevantes do mercado brasileiro.
Para compreender por que esses preços muitas vezes caminham em sentidos opostos, precisamos observar o movimento dos investidores.
O caminho do dinheiro
Imagine um fundo estrangeiro que decide investir no Brasil. Ao trazer dólares e convertê-los em reais para comprar ações, ele contribui para aumentar a oferta da moeda americana e a procura pelos papéis brasileiros. Mantidas as demais condições, esse movimento favorece a queda do dólar e a valorização das ações.
Na direção contrária, quando investidores vendem ações e compram dólares para enviar recursos ao exterior, podem pressionar as ações para baixo e a moeda americana para cima. A oferta, a demanda e a percepção de risco ajudam a explicar essa relação.
É preciso, porém, evitar uma simplificação: vender ações brasileiras não significa necessariamente retirar dinheiro do país. O investidor pode manter os recursos em reais e comprar outros ativos, como títulos de renda fixa.
A confiança influencia os dois mercados
Diante de maior incerteza econômica, os investidores podem reduzir posições em ações e buscar proteção em ativos denominados em dólar. Quando a confiança melhora, aumenta a disposição para assumir riscos e investir em empresas brasileiras.
Assim, frequentemente, dólar e bolsa estão reagindo às mesmas mudanças de expectativas. A alta de um não provoca, automaticamente, a queda do outro.
O câmbio também chega aos resultados das empresas
Um dólar mais caro pode elevar o custo de matérias-primas, equipamentos e componentes importados. Também pode aumentar o valor, em reais, de dívidas em moeda estrangeira que não tenham proteção adequada. Esses efeitos podem reduzir lucros e prejudicar a avaliação das ações.
Além disso, o encarecimento de produtos importados pode pressionar a inflação. Se esse movimento levar à expectativa de juros mais elevados, o financiamento fica mais caro e decisões de consumo e investimento podem perder força. O Banco Central explica que câmbio, juros, crédito e expectativas são canais interligados na economia.
Por que essa relação pode mudar?
Empresas exportadoras podem ganhar com a valorização do dólar, pois suas receitas em moeda estrangeira passam a valer mais em reais.
Em um exemplo hipotético, uma exportação de US$ 1 milhão representa R$ 5 milhões com o dólar a R$ 5,00 e R$ 5,5 milhões com a cotação a R$ 5,50. O efeito sobre o lucro dependerá também dos custos, das dívidas e das proteções cambiais da empresa. Por isso, algumas ações podem subir mesmo quando o real se desvaloriza.
Na minha visão, compreender o mercado exige olhar além da manchete. É necessário identificar o que mudou na confiança, no destino dos recursos e nas perspectivas das empresas.
Dólar e bolsa refletem decisões sobre risco e retorno. Entender o motivo dessas decisões é mais útil do que presumir que os dois sempre seguirão caminhos opostos.