“Soberania digital não pertence a governos, partidos ou ideologias. Pertence às próximas gerações.
E cabe a nós construí-la, agora”, aponta o Professor Doutor Mauro Oliveira
Confira:
(Artigo dedicado à Sociedade Brasileira de Computação)
Na segunda-feira, 26, o despertador tocou.
As urnas já falaram.
Os ônibus seguiram cheios, as escolas abriram seus portões e milhões de brasileiros começaram mais uma semana de trabalho.
É sobre esse Brasil, o da segunda-feira, que vale a pena conversar. Porque há desafios que não esperam e nem cabem em mandatos.
A soberania digital é um deles.
1. O que não mudou na segunda-feira
O Brasil continuou dependendo de provedores internacionais de nuvem e de modelos de inteligência artificial majoritariamente desenvolvidos fora daqui.
Nossos jovens pesquisadores continuarão recebendo ofertas do Exterior que muitas instituições brasileiras não conseguem igualar.
Nenhum desses problemas foi criado por um único governo. E nem será resolvido por um só.
Não por acaso, a União Europeia, os Estados Unidos, a China e a Índia, com regimes e governos muito distintos, tratam a autonomia tecnológica como prioridade.
Soberania digital não pertence a governos, partidos ou ideologias. Pertence às próximas gerações.
E cabe a nós construí-la. Agora.
2. Quando o Estado acerta, o Brasil avança
O Marco Civil da Internet, o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, a Lei Geral de Proteção de Dados, a plataforma gov.br e o Pix têm algo em comum: surgiram em diferentes momentos e atravessaram governos.
Nenhum deles resolveu sozinho a questão da soberania digital. Mas todos mostram que o país sabe construir soluções próprias quando combina conhecimento, instituições e continuidade.
Um país que constrói aviões e revolucionou a agricultura tropical não deveria se conformar em ser apenas consumidor da inteligência produzida pelos outros.
Temos cientistas. Temos universidades. Temos empresas. Temos história.
Governos passam. A capacidade científica e tecnológica de uma nação precisa permanecer.
3. Sete perguntas para segunda-feira
A comunidade brasileira de computação tem razões para continuar perguntando:
3.1. Onde estarão os dados do Brasil?
Dados sobre saúde, educação, segurança, previdência… Mas não basta saber onde estão armazenados. Importa quem os controla, sob qual jurisdição e com que garantias de cibersegurança e fiscalização.
3.2. Seremos usuários ou também desenvolvedores de IA?
Precisamos de capacidade computacional, pesquisadores e modelos que compreendam nossa língua, cultura e diversidade. A IA precisa aprender com o Brasil, e o Brasil precisa aprender a construí-la.
3.3. O que faremos com nossas riquezas estratégicas?
Nossos minerais críticos, como as terras raras, e os investimentos em datacenters representam oportunidades para o Brasil. Mas precisamos convertê-los em conhecimento, empregos qualificados, domínio tecnológico e benefícios locais, com responsabilidade socioambiental. Sem isso, repetiremos a história do pau-brasil. Agora com ar-condicionado.
3.4. Nossos cientistas terão motivos para ficar?
Ciência não tem passaporte, e é bom que nossos pesquisadores circulem pelo mundo. O problema surge quando faltam financiamento estável e condições para que fiquem, voltem ou colaborem daqui.
3.5. O Estado comprará inovação brasileira?
O poder de compra público pode transformar o conhecimento de universidades, startups e empresas nacionais em soluções para o próprio Estado. Os EUA fazem isso há décadas. Toda compra pública é também uma escolha de futuro.
3.6. Formaremos cidadãos ou apenas operadores de IA?
Letramento digital não é apenas saber usar ferramentas. É aprender a pensar, questionar e criar sem terceirizar o raciocínio. Das capitais aos sertões, precisamos proteger nossos jovens da atrofia cognitiva.
3.7. Quem responde quando o algoritmo erra?
Decisões automatizadas sobre benefícios, crédito e serviços públicos precisam ser transparentes, auditáveis e contestáveis pelo cidadão. O mesmo vale para os algoritmos que decidem o que vemos, e o que deixamos de ver, nas redes sociais.
Sete perguntas que continuarão esperando respostas nesta segunda-feira e em todas as segundas-feiras seguintes.
4. A responsabilidade de quem sabe
A comunidade da SBC conhece por dentro as possibilidades e os limites da tecnologia.
Não precisamos concordar em tudo. Aliás, seria preocupante se concordássemos. A Ciência avança por perguntas, evidências e divergências.
Mas podemos construir consensos em torno de objetivos estratégicos e transformá-los em agenda permanente. Sem exigir identidade partidária de ninguém.
Um começo seria acompanhar publicamente, ano a ano, as respostas às sete perguntas. Com dados, indicadores e diálogo institucional. Para avaliar o quanto o Brasil avançou.
Publicar artigos científicos é essencial. Mas precisamos também participar das decisões sobre nossa infraestrutura digital, nossas políticas tecnológicas e o futuro das próximas gerações.
Soberania precisa de continuidade. Não de unanimidade.
5. A maior reserva estratégica do Brasil
Há uma dimensão da soberania digital que não cabe nos datacenters, nos satélites ou nos algoritmos.
Ela mora nas salas de aula.
Na sexta-feira, 16 de outubro, na Escola Profissional Paulo Petrola, na periferia de Fortaleza, conversei com cerca de 50 estudantes sobre inteligência artificial e os riscos de trocar o esforço de pensar por respostas prontas. Apresentei a Metodologia FÊNIX: pensar, escrever, explicar e debater antes de confrontar as próprias ideias com a IA.
Afinal, a aprendizagem mora no intervalo entre a pergunta e a resposta.
Mas aconteceu algo que não estava no roteiro. Os jovens tomaram a palavra. Questionaram, debateram, propuseram. A palestra ganhou vida.
E uma iniciativa me emocionou: estudantes da UFC, presentes ao evento, anunciaram a disposição de preparar jovens da periferia para ingressar no ITA, agora com uma unidade em Fortaleza..
Jovem ensinando jovem. Uma tecnologia pedagógica que não precisa de silício nem de datacenters.
Precisa de gente.
A maior reserva estratégica do Brasil não está debaixo da terra. Está dentro da cabeça de sua juventude.
6. Brasil de segunda?
Há uma ambiguidade incômoda neste título.
O Brasil de segunda-feira é o país que acorda depois das eleições.
Mas um Brasil de segunda é também aquele que se conforma em ser consumidor de tecnologia alheia, fornecedor de dados e energia, espectador da revolução da inteligência artificial.
Qual Brasil construiremos?
Isso não se resolve numa eleição. Resolve-se nas políticas que permanecem, nos laboratórios que produzem conhecimento, nas escolas que ensinam a pensar e nas oportunidades que oferecemos à juventude.
Há ainda uma última soberania, a mais íntima de todas.
É a capacidade de cada pessoa escolher seus caminhos, pensar com a própria cabeça e decidir o que fazer da vida, mesmo diante das adversidades.
Para falar dela, precisamos voltar mais de quatro séculos.
7. A vida também tem seus moinhos de vento?
Em 1597, um homem de 50 anos estava novamente na prisão. Uma guerra lhe deixara a mão esquerda inutilizada. Passara cinco anos em cativeiro em Argel. Conhecera dívidas e desilusões.
Resolveu escrever um livro:
Dom Quixote!
Pois é, Miguel de Cervantes contou a história de outro homem que insistia em enfrentar gigantes, mesmo quando eram apenas moinhos de vento.
Há algo extraordinário nessa teimosia.
Dom Quixote caiu, levantou-se, errou, sonhou. Não venceu todos os combates. Nem precisava. Tentou fazer da própria vida algo maior: um propósito.
Tirar o máximo de si mesmo. Não será esse o melhor que um homem pode fazer da vida?
Talvez seja essa a soberania mais íntima: não deixar que as circunstâncias decidam por nós.
No domingo, a democracia escolheu seus representantes.
Na segunda-feira, o Brasil continuará esperando o melhor de cada um de nós: nossa inteligência, nosso trabalho, nossa capacidade de aprender, ensinar e recomeçar.
Porque soberania digital não tem segundo turno.
Mauro Oliveira
Professor, doutor em Informática (Sorbonne University)
Foi Secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações no 1º governo Lula