“Café Java” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovítera, o contador de histórias. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Café Java”, eis mais um texto de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

(Entre uma xícara e outra, a palavra encontra pouso – e a cidade, o seu espelho)

Confira:

Café é assunto do meu interesse. Meu avô Miguel teve um, na Praça dos Voluntários, ponto de encontro de intelectuais, estudantes e gente comum. Chamava-se Íris. Depois da Segunda Guerra, virou Iracema, em meio ao quebra-quebra e aos saques promovidos por oportunistas.

Cafés são pausas no ritmo do mundo. Valem menos pelo cardápio do que pelas conversas no balcão e ao redor das mesas. Entre goles e silêncios, ideias se arriscam, diferenças se acomodam, amizades se firmam – e a cidade se reconhece.

Viajo no tempo – esse bonde correndo sobre trilhos de memória – e desço na ladeira do afeto até o novo Café Java, na Academia Cearense de Letras, em Fortaleza. O Java é uma estação literária; ali, o passado se senta ao lado do presente, bem à vontade.

No Java, todos são poetas – até os descrentes. Uns escrevem versos, outros redigem bulas, outros rabiscam guardanapos. Cada qual carrega sua porção de poesia. Ali, a palavra não é instrumento; é companhia. Junta-se à música como velha cúmplice, e a canção, quase sempre improvisada, cumpre seu ofício: despertar românticos e sonhadores.

As histórias circulam entre as mesas como o cheirinho do café passado na hora – literárias, musicais, urbanas. Ampliam nossa paisagem, sob o sol de Iracema ou a lua a clarear a Praça dos Leões. À noite, os notívagos brindam ao passado e ao futuro ainda por inventar, naquele discreto terreiro da imaginação.

No Café Java, as ideias não se impõem; conversam. Encontros e desencontros convivem com elegância. Divergências não afastam; procuram medida. Do debate nasce algum acordo; das diferenças, um desenho comum. Nele cabem valores simples e essenciais: amizade, escuta, humor, teimosia mansa, esperança. E silêncio, quando convém.

Há dias do cronista abrir a cidade como quem escancara uma janela. Em outros, o poeta insiste em sobrevoar os caprichos do mundo. E sempre aparece um bode – Ioiô, talvez – encarnando o espírito inquieto da cultura alencarina, esse Ceará Moleque, capaz de rir de si mesmo e, entre risos, melhor se compreender.

Estive lá. Sentei-me disposto a ouvir mais, falar menos – tarefa difícil para mim. Saí aprendiz e satisfeito: o Java ensina pelo convívio. Ainda hoje trago o gosto do café e da conversa. Amanhã volto – com pressa de chegar e nenhuma de partir.

Agora, com licença: Senhor, por obséquio, mais um café! Longa vida à conversa.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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