“Vencer é uma coisa, governar é outra: os desafios do Brasil pós-eleição” – Por Jurandir Gurgel

Jurandir Gurgel é mestre em Economia e membro do Conselho Curador da Fundação Sintaf

Com o título “Vencer é uma coisa, governar é outra: os desafios do Brasil pós-eleição”, eis artigo de Jurandir Gurgel, mestre em Economia e membro do Conselho Consultivo da Fundação Sintaf de Ensino e Pesquisa. “É na economia, entretanto, que se encontra o maior desafio do próximo governo. O Brasil enfrenta um quadro fiscal marcado pela expansão das despesas obrigatórias, rigidez orçamentária, juros reais elevados, baixa produtividade e restrições ao investimento público”, expõe o articulista

Confira:

Para compreender a histórica virada eleitoral do candidato governista, recorro a Ariano Suassuna, que se definia como um realista esperançoso: alguém capaz de reconhecer as dificuldades da realidade sem renunciar à possibilidade de transformá-la. É nessa perspectiva, conjugando análise política e fundamentos da psicologia econômica, que procuro interpretar o desfecho eleitoral de 2026 e os
desafios do próximo governo.

Os estudos de Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram que, em determinadas circunstâncias, a dor psicológica de uma perda pode ser aproximadamente duas vezes mais intensa que a satisfação proporcionada por um ganho equivalente. Essa aversão à perda, conceito central da economia comportamental, oferece uma chave interpretativa para o comportamento eleitoral: diante da incerteza, o eleitor pode preferir preservar direitos e conquistas conhecidos a apostar em benefícios futuros, ainda que potencialmente maiores.

A reeleição de Lula, após encerrar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, representa um acontecimento político relevante. A vitória, com aproximadamente 51,8% dos votos válidos contra 48,2%, evidencia sua capacidade de recuperação eleitoral, mas também revela um país profundamente polarizado.

A virada pode ser interpretada pela convergência de três fatores: mobilização popular nas ruas, reformulação da comunicação digital e uso da capacidade institucional do governo. Particularmente relevante foi a estratégia digital associada ao chamado “Exército do Lula”, que explorou uma narrativa de risco de perda de direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, além de questões relacionadas à saúde e à segurança pública. A defesa da democracia ganhou, assim, maior apelo quando vinculada às preocupações concretas da população.

Os números apresentados para os dois turnos ajudam a dimensionar essa mobilização. A abstenção recuou de 21,08% para 19,22%, representando aproximadamente 2,96 milhões de eleitores adicionais nas urnas, enquanto os votos brancos e nulos diminuíram em 1,82 milhão. Regionalmente, Lula ampliou sua votação em cerca de 2,96 milhões de votos no Nordeste e 4,8 milhões no Sudeste. O Nordeste assegurou uma margem eleitoral expressiva, enquanto o Sudeste desempenhou papel decisivo na recuperação de votos.

Esses movimentos são compatíveis com a hipótese de que a percepção de riscos econômicos e sociais influenciou parte do eleitorado, embora não permitam atribuir exclusivamente à aversão à perda o resultado das urnas. Para determinados segmentos, votar em Lula pode ter representado menos uma adesão irrestrita ao seu programa e mais uma escolha de proteção diante das incertezas associadas à
alternativa representado pelo candidato da oposição.

A eleição também evidencia uma configuração política peculiar: uma direita com expressiva força eleitoral, mas diante do desafio de consolidar uma liderança agregadora fora da bolha bolsonarista; uma esquerda dependente da capacidade de mobilização de seu maior Líder e carente de renovação; e um Centrão menor, mas fortalecido pela fragmentação partidária, pois nenhuma maioria se forma no
Congresso sem ele. Nesse cenário, transformar capital eleitoral em governabilidade será um dos principais desafios do quarto mandato.

É na economia, entretanto, que se encontra o maior desafio do próximo governo. O Brasil enfrenta um quadro fiscal marcado pela expansão das despesas obrigatórias, rigidez orçamentária, juros reais elevados, baixa produtividade e restrições ao investimento público. Com a dívida próxima de 83% do PIB e compromissos fiscais crescentes para 2027, torna-se indispensável assegurar uma trajetória sustentável do endividamento, aperfeiçoar o arcabouço fiscal e compatibilizar despesas permanentes com fontes estáveis de financiamento. Responsabilidade fiscal, contudo, não se confunde com austeridade indiscriminada: a compressão dos investimentos compromete o crescimento futuro, enquanto a expansão de despesas correntes sem financiamento sustentável agrava os desequilíbrios

fiscais. O desafio, portanto, transcende o cumprimento formal de metas e exige conciliar estabilidade
macroeconômica, eficiência do gasto, capacidade de investimento e proteção social, reconhecendo que
a sustentabilidade fiscal depende tanto da qualidade das escolhas econômicas e a percepção dos
agentes econômicos quanto a credibilidade e previsibilidade das instituições que as sustentam.

Nesse contexto, as contribuições de Robert E. Hall e Michael Woodford, laureados com o Nobel de Economia de 2026 por seus estudos sobre os fundamentos microeconômicos da estabilização macroeconômica, ressaltam o papel das expectativas e da credibilidade das políticas econômicas. Para o Brasil, a principal lição é que o êxito do próximo governo dependerá menos da dicotomia entre Estado e mercado e mais da capacidade de conciliar estabilidade macroeconômica, responsabilidade fiscal e crescimento socialmente inclusivo, mediante uma estratégia institucionalmente consistente, previsível e capaz de inspirar confiança nos agentes econômicos.

Há, ainda, um desafio que ultrapassa o horizonte econômico: a renovação das lideranças políticas. Lula construiu uma trajetória singular, de retirante nordestino a líder sindical e presidente da República. Entretanto, seu protagonismo histórico não substitui a necessidade de fortalecer as instituições e preparar uma sucessão democrática. Da mesma forma, a direita precisará compreender a diversidade de motivações de seu eleitorado e consolidar uma alternativa programática comprometida com as instituições republicanas.

Preocupa, nesse ambiente de polarização, a postura de autossuficiência manifestada por ambos os candidatos, especialmente pelo tom de seus discursos após a eleição. A vitória nas urnas confere legitimidade para governar, mas não dispensa humildade republicana, diálogo e respeito ao contraditório. Afinal, como estabelece o parágrafo único do art. 1º da Constituição Federal, “todo o poder emana do povo”, princípio que reafirma o mandato como responsabilidade perante a sociedade, e não como apropriação do poder. Diante de um país dividido e de um Congresso fragmentado, o desafio será transformar a vitória eleitoral em governabilidade, colocando o interesse nacional acima das disputas pessoais e partidárias.

Retomando o realismo esperançoso de Ariano Suassuna, prefiro acreditar que, superadas as emoções e os antagonismos do pós-eleição, prevalecerá a grandeza de um verdadeiro estadista, cuja essência reside na capacidade de transformar legitimidade política em estabilidade institucional, responsabilidade fiscal e desenvolvimento socialmente inclusivo. Afinal, as urnas definem quem governa, mas são as escolhas políticas, o fortalecimento das instituições e as oportunidades deixadas às próximas gerações que distinguem uma vitória eleitoral de um verdadeiro legado de governo.

*Jurandir Gurgel

Mestre em Economia e membro do Conselho Curador da Fundação SINTAF de Ensino e Pesquisa

jggondim@terra.com.br

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