“No mundo do trabalho, quando a burocracia das reuniões também me fazia somar horas que pareciam requentar areia de ampulhetas reviradas, encontrei nos desenhos e em palavras soltas, uma forma de estar sem estar”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Desde pequena, gosto de me abstrair, de criar histórias. Algumas vezes eram pura fantasia, noutras, até poderiam ser reais. Durante muitos anos, devido a uma escoliose que precisava ser contida, passei incontáveis horas em clínicas de fisioterapia. Enquanto algumas crianças poderiam se entediar, eu usava aquele tempo meio solitário para imaginar personagens, situações e diálogos.
No mundo do trabalho, quando a burocracia das reuniões também me fazia somar horas que pareciam requentar areia de ampulhetas reviradas, encontrei nos desenhos e em palavras soltas, uma forma de estar sem estar. Aprendi a deixar meu corpo sentado e a libertar minha alma quando percebia que as falas não produziam mais sentido.
Assim que passei a trabalhar mais tempo em home office, coloquei a mesa com meu notebook ao lado de uma janela. Quando não estou em evento, reunião externa, cuidando da minha mãe ou caminhando na praça em frente ao meu condomínio, é neste ambiente em que mais posso ser encontrada. Daqui saem crônicas, colunas e meus livros.
Nesta janela encontrei um novo espaço para as fabulações que me acompanham desde a infância. A vidraça, aberta ou fechada, permite que a divagação encontre liberdade para inventar, imaginar, misturar realidade e ficção, buscar memórias, lançar-se em futuros.
As buzinas do trânsito, a criança que chora, os barulhos de uma grande obra, a hora do Ângelus, as notificações do celular e até a gritaria dos periquitos se transformam em cenários, em perspectivas de histórias a contar.
No cantinho dessa minha janela para o mundo, coloquei miniaturas de uma casa, um apito de passarinhos, um anjo, uma pedra. Mais do que mini memórias de viagens, presentes ou acontecimentos, são pontes que me levam para o espaço livre do pensamento.
E você, qual o seu espaço preferido para fabular?
Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora