Com o título “Armadilha das Bets”, eis texto de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. Ela aborda as bets, hoje alvos de audiência pública no Supremo Tribunal Federal.
Confira:
— Dona Zulmira, a senhora pode me mandar vinte reais para eu comprar leite e pão para as crianças?
— Mas, Juscelino, há dois dias mandei trinta reais para você. Já está precisando de dinheiro novamente?
— É que a coisa está brava aqui em casa.
— O que você tem feito com seu salário?
— São muitas despesas e o dinheiro é curto.
— A Marciana, sua mulher, não ajuda? Ela faz bolos e vende para o comércio aqui do bairro. Vou conversar com ela para saber o que está acontecendo.
— Não faça isso, pelo amor de Deus! Se ela souber que estou pedindo dinheiro, vai ficar irritada e nós vamos acabar brigando.
— Rapaz, fale a verdade. No que você se meteu?
— Estou devendo mais de dez mil reais a um agiota. Ele já tomou minha moto e está ameaçando ir lá em casa buscar a televisão e a geladeira.
— A Marciana sabe dessa dívida?
— Não. Disse que a moto tinha quebrado e que a levei para a oficina.
— Abra o jogo. Como você se endividou desse jeito?
— Eu já disse: está tudo muito caro.
— Não me venha com essa história. Conte a verdade.
— Uns amigos estavam ganhando muito dinheiro com jogos on-line e resolvi tentar a sorte.
— Meu filho, como você foi se meter numa coisa dessas?
— Estou desesperado e, o pior, não consigo parar de jogar. Estou viciado. Não sei o que vai ser da minha vida nem da minha família.
Essa conversa aconteceu entre um amigo, funcionário público, de 45 anos, casado e pai de três adolescentes, e uma antiga vizinha de sua mãe. Há pouco mais de seis meses, ele passou a pedir ajuda financeira a conhecidos e colegas de trabalho.
Sua história se repete na vida de milhares de brasileiros atraídos pelo canto da sereia das plataformas de apostas on-line. Por trás dessa sedução estão influenciadores que recebem fortunas para promover as bets. Os efeitos vão muito além das perdas financeiras. As apostas comprometem a saúde mental dos jogadores e afetam diretamente suas famílias.
Nos últimos dias, as redes sociais foram invadidas por argumentos a favor e contra a manutenção desses jogos. Lula também se manifestou e pediu mobilização em defesa da manutenção da medida, criticando os lucros obtidos à custa do endividamento e do sofrimento das famílias.
Enquanto empresas e influenciadores ganham milhões, trabalhadores enfrentam o endividamento, o comprometimento da renda familiar e a depressão. A luta pelo fim das bets não é uma questão moral, mas de responsabilidade com as pessoas que estão pagando um preço alto por essa atividade.
*Suzete Nocrato
Jornalista, mestre em Comunicação e escritora.
suzete.nocrato@gmail.com