Com o título “CALL FOR PAPERS — 100 Soluções para a Soberania Digital Brasileira”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, doutor em Informatica pela Sorbonne University e ex-secretário Ncional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.
Uma chamada de trabalhos que ainda não existe. Mas talvez devesse existir.
Confira:
Muitos de nós já lemos dezenas de calls for papers. Alguns de nós já escrevemos algumas.
Conhecemos o ritual. Escopo, tópicos, formato, datas, comitê. Prazo prorrogado, claro.
Esta é mais uma. Com uma diferença:
quem chama não é uma conferência. É o país .
A palavra soberania voltou ao centro do debate nacional. E ela não tem partido.
1. Escopo
Debaixo dos nossos pés, uma das maiores reservas mundiais de terras raras.
Sobre nossas cabeças, sol e vento em abundância.
Entre um e outro, projetos bilionários de datacenters disputando território.
Mas quem vai construir a inteligência?
Esta chamada tem uma meta: 100 soluções para problemas concretos do Brasil. Não cem discursos. Cem soluções.
2. Trilhas temáticas
Trilha 1 — IA que fala brasileiro
Contexto : Modelos que entendam nossa língua, nossas leis, nossos sotaques e sertões.
Tópicos : Sistemas abertos com fine-tuning local, multiagentes, corpora em português e em línguas indígenas, avaliação de vieses regionais.
Exemplo de submissão – IA local, soberania real:
Um assistente jurídico em português, rodando localmente, que explique ao cidadão seus direitos sem enviar seus dados para fora do país.
Argumento : Equipamentos de IA, como o NVIDIA DGX Spark, custam hoje cerca de U$ 7mil (EUA). Permitem, de imediato, “rodar” IA localmente, com código aberto, e cabem no orçamento de nossos laboratórios (ver PBIA). E isso importa quando é preciso proteger dados sensíveis e controlar modelos.
Sim, o chip é norte-americano. Mas soberania não é autarquia. É escolher onde os dados e os modelos rodam, e sob quais regras.
Sem máquina própria, somos inquilinos da inteligência alheia. E inquilino não escolhe o reajuste do aluguel.
Trilha 2 — Rede Cooperativa de Computação
Contexto : O Brasil disputa datacenters bilionários, enquanto seus pesquisadores carecem de capacidade computacional.
Tópicos : Nuvens federadas, escalonamento e compartilhamento de GPUs, computação de alto desempenho, segurança cibernética, eficiência energética e resfriamento em clima tropical.
Exemplo de submissão – GPU não deveria ficar de férias:
Uma plataforma que una laboratórios de Fortaleza, Vitória, Porto Alegre e Belém, com escalonador de tarefas, autenticação federada e indicadores de uso. O pesquisador submete o treinamento. O sistema encontra o nó livre.
Argumento : Faz muito sentido compartilhar GPUs, modelos e conhecimento entre universidades, institutos federais e centros de pesquisa.
E uma pergunta que não quer calar e que merece resposta técnica e institucional: como transformar os incentivos aos datacenters em contrapartidas de acesso para a pesquisa brasileira?
Trilha 3 — Do subsolo ao algoritmo
Contexto : O novo marco dos minerais críticos prevê incentivos para processar aqui o que antes saía bruto.
Tópicos : IA aplicada à geologia com dados públicos brasileiros, gêmeos digitais de plantas de refino, rastreabilidade da cadeia mineral, reciclagem de materiais estratégicos.
Exemplo de submissão – A mina que aprende:
Um gêmeo digital aberto de uma etapa do refino, unindo computação, geologia e engenharia química, para simular operações, estimar consumo de água e energia e testar parâmetros antes de gastar reagente.
Argumento : Processar aqui exige mais que fábricas. Exige saber modelar, simular e otimizar cada etapa da cadeia. É nesse ponto que a computação transforma minério em conhecimento.
Trilha 4 — Serviços públicos inteligentes e algoritmos responsáveis
Contexto : Soluções nacionais para saúde, educação, justiça e gestão pública.
Tópicos : Auditoria de algoritmos, transparência de decisões automatizadas, direito do cidadão de contestar o algoritmo, detecção de conteúdo sintético.
Exemplo de submissão – Uma IA que precisa explicar o que fez:
Um sistema multiagente de apoio à saúde mental. Um agente acompanha sinais e indicadores, outro aponta mudanças de padrão, um terceiro busca evidências clínicas. Cada alerta informa a origem dos dados e seus limites. Ajuda ao profissional de saúde decidir.
Argumento : Essa é uma das possibilidades de evolução do Giselle Saúde, projeto que desenvolvemos no Ceará (projeto EMBRAPII) para apoiar o cuidado à saúde mental de idosos.
Inteligência artificial no serviço público não pode ser uma caixa-preta com crachá de autoridade.
Trilha 5 — Formação de autores, não só de usuários
Contexto : A soberania mais íntima é a de pensar com a própria cabeça.
Tópicos : Plataformas educacionais abertas, letramento em IA, metodologias que usam a IA como “adversária cognitiva”, e não como substituta do pensamento.
Exemplo de submissão — Uma IA que não entrega a resposta:
Uma plataforma baseada no método FÊNIX. Primeiro, o estudante pensa e escreve. Depois, explica ao colega. Só então a IA FÊNIX entra: apresenta contra-argumentos, aponta lacunas, pede revisão. O sistema registra versões e convida à defesa oral do raciocínio.
Argumento : Uma IA que entrega a resposta pronta ao aluno forma usuários e atrofia sua cognição. Uma IA que questiona forma autores. A diferença está no desenho pedagógico, não no modelo.
Trilha livre — Para o que ainda não pensamos
Contexto : Propostas que não ste enquadrem nas cinco trilhas anteriores.
Tópicos : Os que ainda não listamos.
Exemplo de submissão — A surpresa:
O trabalho que nenhum comitê teria previsto.
Argumento : A ciência costuma chegar a lugares que ninguém previu… Ainda bem.
3. Formato de submissão
Não exigimos template da SBC. Nem doze páginas. Nem double-blind.
Cada submissão parte de uma regra simples: um problema brasileiro, uma proposta de solução. De preferência, com mais de uma instituição.
São bem-vindos:
• um protótipo funcionando, mesmo feio
• um modelo que fale português e rode em “máquina brasileira”
• GPUs ociosas oferecidas à rede cooperativa
• um dado aberto que ajude a transformar um problema em conhecimento
• um algoritmo público capaz de explicar o que fez
• uma disciplina que forme autores, não só usuários
• um aluno que decidiu ficar no Brasil
Não se trata de desprezar a pesquisa básica. Sem ciência sólida, nenhuma dessas soluções seria possível. Mas podemos ampliar os caminhos pelos quais o conhecimento chega à sociedade.
O paper pode vir depois. Geralmente vem.
4. Datas importantes
Abertura das submissões: hoje
Primeira rodada: Amanhã
Primeiras dez soluções apresentadas : no CSBC, em julho
Cem soluções : quando a comunidade decidir
Prazo final não há
Esta chamada não será prorrogada. Porque nunca encerra.
5. Critérios de avaliação
As contribuições serão avaliadas por sete perguntas simples:
1. Resolve um problema brasileiro real?
2. O conhecimento fica aqui, ou só o servidor?
3. Alguém além do autor consegue usar, replicar ou ensinar?
4. Sobrevive ao fim do projeto?
5. Une quem antes trabalhava sozinho?
6. Forma gente?
7. Reduz nossa dependência tecnológica?
Fator de impacto conta. Impacto na vida das pessoas também.
6. Comitê de programa
Coordenação geral: a diretoria da SBC, articulando entidades e empresas nacionais, governo federal.
Coordenação local: um coordenador em cada secretaria regional da SBC, articulando universidades, institutos federais, empresas locais e governos do seu território.
Mentores : pesquisadores voluntários, da ativa ou aposentados, que acompanhem as equipes, da proposta ao protótipo.
Membros : todos nós. Professores, pesquisadores, estudantes, profissionais de empresas, servidores públicos. Das capitais aos sertões.
Poderíamos começar conectando quem sabe fazer com quem precisa de solução, em diálogo com governos, empresas e sociedade civil, preservando a independência científica.
Importante : o único trabalho rejeitado é o que não foi submetido.
7. Das sete perguntas às cem soluções
No sábado passado, véspera do segundo turno, apresentamos sete perguntas e indagamos qual Brasil encontraríamos na segunda-feira.
Hoje, arrisco outra:
Qual problema brasileiro seu laboratório, grupo de pesquisa ou instituição poderia ajudar a resolver?
Talvez sejam cem soluções. Talvez vinte. Talvez a primeira reúna apenas três laboratórios. O número importa menos que a atitude.
O Brasil tem riquezas debaixo da terra.
Tem energia chegando do céu. Mas sua maior reserva estratégica está entre os dois. Dentro da cabeça de sua gente.
E essa riqueza, ao contrário das terras raras, cresce quando é compartilhada.
Soberania não tem partido, nem se decreta. Programa-se.
E, sobretudo, constrói-se em conjunto.
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, doutor em Informatica pela Sorbonne University. Foi Secretário Ncional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.