“Um Viva às Lobas Cearenses” – Por Mirelle Costa

Prêmio Loba

Ana Márcia Diógenes, Glória Guará e Mylena de Lima Queiroz estão entre as semifinalistas de uma premiação dedicada à literatura de autoria feminina

A literatura escrita por mulheres tem muitas vozes, sotaques, experiências e formas de contar o mundo e o Ceará tem três motivos para celebrar algumas dessas vozes nesta semana. Três escritoras cearenses estão entre as semifinalistas do Prêmio Literaturas e Obras de Autoras (LOBA) 2026: Ana Márcia Diógenes, Glória Guará e Mylena de Lima Queiroz.

Criado para reconhecer e divulgar obras produzidas por mulheres brasileiras, sejam elas já publicadas ou em estreia nos cenários literário e audiovisual, o Prêmio LOBA chega à sua quarta edição. Nas três primeiras, recebeu mais de três mil obras inscritas, evidenciando a pluralidade e a potência da produção artística feminina no Brasil. São catorze categorias que contemplam diferentes expressões e formatos.

Mais do que uma seleção, estar entre as semifinalistas representa uma oportunidade de ampliar a circulação dessas obras e aproximar novos leitores de autoras que têm muito a dizer.

Ana Márcia Diógenes: uma escrita que nasceu das fabulações

Para Ana Márcia Diógenes, a notícia da semifinal no LOBA foi recebida com alegria, mas também com a consciência de que os concursos literários envolvem escolhas subjetivas e uma disputa entre muitos trabalhos de qualidade.

Sua relação com a escrita começou ainda na infância, com as fabulações, e ganhou força durante a adolescência, quando passou a registrar suas inquietações. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará, conta que chegou a imaginar que a profissão daria conta de seu desejo de escrever, mas descobriu que jornalismo e literatura são instâncias diferentes.

Seu primeiro livro foi publicado em 2017: De esfulepante a felicitante, uma questão de gentileza, voltado ao público juvenil. Desde então, construiu uma trajetória de experimentação editorial. Publicou por editoras os livros Buraco de dentro, romance semifinalista do Prêmio Oceanos 2025, e Rosa dos ventos.

Também criou o próprio selo editorial, Quichaitá, por meio do qual publicou Caso porque te amo, mato porque me amoe Entrou injeção, saiu o quê?. Sua produção inclui ainda plaquetes costuradas à mão, como Pérfuro-matante, Reze que meus pés não apontem para você e Poesia e contos pequetitos, além do jogo Tabuleiro de poemas.

Com formação também em Literatura, Artes e Filosofia, Psicologia Positiva e mestrado em Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará, Ana Márcia prepara seu primeiro livro de contos, previsto para o próximo ano.

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Ana Márcia Diógenes

Glória Guará: a poesia como paixão e peleja

Professora do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará e doutora em Linguística, Glória Guará vive um momento especial. Depois de publicar seu primeiro livro de poesia, Um relicário para viver mais, pela editora Patuá, em 2025, ela acaba de conquistar um lugar entre as semifinalistas do LOBA com uma obra que ainda não chegou às livrarias.

O livro se chama Eu te amo não é o nome do amor. Glória conta que o escreveu em 35 dias e passou um ano reescrevendo. Ao concluir o trabalho, em junho deste ano, descobriu que o prêmio também contemplava livros de poesia ainda não publicados e decidiu inscrevê-lo.

A notícia foi recebida como uma injeção de ânimo. A escritora destaca a presença de grandes poetas entre as semifinalistas e considera que premiações como essa ajudam a dar visibilidade à produção feminina, contribuindo para a divulgação e a circulação dos livros.

Glória se define como apaixonada e grande entusiasta da poesia. E talvez esteja aí uma das melhores maneiras de compreender sua relação com a escrita: a poesia exige dedicação, trabalho e persistência, inclusive quando o reconhecimento ainda está por vir.

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Glória Guará na Flip, em Paraty

Mylena de Lima Queiroz: mulheres no caos e nos encontros do cotidiano

Para Mylena de Lima Queiroz, a semifinal do Prêmio LOBA tem um sabor especial. É a primeira vez que participa da premiação, e a obra selecionada foi Pane Bruta, livro que em breve estará em pré-venda.

Nascida no agreste pernambucano e residente no litoral cearense, Mylena é professora de Teoria Literária da Universidade Estadual do Ceará (UECE), doutora em Literatura pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), com estágio doutoral na Universidade de Hamburgo. Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado sobre autoria feminina e horror na América Latina.

Em Pane Bruta, a autora reúne narrativas de mulheres atravessadas pelo caos e pelos encontros do cotidiano. Entre seiva, muco e graxa, como ela própria antecipa, o livro apresenta histórias que exploram experiências e tensões da vida feminina. Um dos contos, Papangu Overdrive, também é finalista do Prêmio Odisseia de Literatura.

Sua estreia na ficção aconteceu com Sangue de Cabra (Patuá, 2025), livro que foi finalista do Prêmio Mozart de Literatura, alcançou o primeiro lugar n’O Odisseu entre os Melhores Livros de 2025 e já conquistou contratos de publicação em seis países, com traduções para espanhol e inglês. Mylena também é finalista do Prêmio Odisseia de Literatura 2026 em duas categorias.

Ao comentar a seleção, ela destaca a alegria de encontrar entre as semifinalistas autoras como Bruna Pereira, Ana Márcia Diógenes, Juliana Sakae e Janaína Abílio. Para Mylena, a literatura e a não ficção brasileiras de autoria feminina têm nos levado a conhecer os Brasis.

Mas há uma expectativa que parece superar até mesmo a ansiedade pelos resultados das premiações: a de descobrir como será quando as leitoras e as leituras tomarem conta de Pane Bruta.

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Mylena de Lima Queiroz

As trajetórias de Ana Márcia Diógenes, Glória Guará e Mylena de Lima Queiroz são distintas, mas se encontram em um ponto importante: a persistência de mulheres que fazem da escrita um espaço de criação, investigação e expressão.

Uma construiu caminhos independentes de publicação, experimentando formatos e criando seu próprio selo editorial, a outra celebra o reconhecimento de uma poesia ainda inédita e a terceira aguarda a chegada de um novo livro às mãos dos leitores, depois de uma estreia que já ultrapassou fronteiras.

Três percursos, três formas de escrever e um motivo comum para comemorar: o reconhecimento.

Desejo que ser semifinalista do Prêmio LOBA seja também um convite para que leitores cearenses procurem essas obras, acompanhem essas autoras e descubram a literatura que está sendo produzida por mulheres tão próximas de nós, afinal, celebrar escritoras cearenses também é uma maneira de reconhecer a força da nossa literatura. Estamos na final do prêmio Oceanos, com nossa Nina Rizzi, estivemos na final do Jabuti e estaremos até na Sapucaí.

E você aí, escritora, ainda duvida de si?

(Até rimou).

A Vila das Artes promove a Semana do Livro e da Biblioteca amanhã, dia 5 de novembro. Estarei lá para um diálogo literário.

A Vila das Artes é um equipamento da @prefeituradefortaleza, vinculado à @culturadefortaleza e gerido em parceria com o @institutoiracema.

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