Com o título “Antes do Sol”, eis mais um texto de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Confira:
Antes do sol nascer, muita coisa já amanheceu dentro da gente.
Depois de ouvir, ainda menino, “Deus ajuda a quem madruga”, resolveu levar a frase ao pé da letra. Passou a acordar antes do sol, na esperança de pegá-lo com a mão. Com o tempo, descobriu ser mais fácil encontrar o sol no pensamento do que segurá-lo entre os dedos.
Acordar cedo nunca foi problema para ele. Tudo depende do interesse pelo dia por vir. Quando há alguma coisa boa esperando pela manhã, o corpo parece entender o chamado antes mesmo do galo cantar. A vontade se encarrega do relógio.
Também não se esforça para dormir. Evita bater de frente com a dona Insônia, péssima conselheira nas madrugadas desertas. Ela gosta de silêncio agourento, pensamentos complicados e perguntas sem resposta. Quando aparece, ele prefere não discutir. Deixa-a falar sozinha.
Nessas horas, a lógica parece tirar o gibão e dar lugar à imaginação. A razão continua por perto, mas fala baixinho. A madrugada embaralha lembranças, achega pensamentos distantes, abre janelas para possibilidades esquisitas e, vez por outra, faz nascer uma boa ideia no meio de uma besteira.
Talvez o comportamento existencial seja um pouco disso. Nem sempre vale a pena confrontar o inevitável. Há situações pedindo ação; outras pedem apenas para passar. Aprendeu a distinguir uma da outra, embora nem sempre acerte.
Pensa, portanto, logo existe – mas nem por isso precisa fazer de todo pensamento uma sentença. Algumas ideias precisam apenas de um cafezinho. Outras, de silêncio. Há também aquelas destinadas ao esquecimento. Uma forma bastante razoável de sabedoria.
Enfim, talvez madrugar tenha menos a ver com levantar cedo. Pode ser simplesmente continuar acordado para a vida, atento ao dia vindouro e disposto a sentir o sol quando ele aparece.
Pegá-lo com a mão, pode ser pedir demais. Melhor deixá-lo fazer seu trabalho: iluminar o caminho enquanto a gente tenta não tropeçar nas sombras das próprias certezas.
Ah, sim, ele sou eu. E eu somos nós. Talvez esteja aí a graça da coisa: entre uma madrugada e outra, cada um vai achando um pouco de si nos pensamentos, nas dúvidas, nas lembranças e até nas besteiras.
No meu caso, basta acordar antes do sol para perceber: viver é equilibrar lógica e imaginação, sem levar nenhuma a sério demais.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.