“Neuroeconomia e descontrole dos jogos on-line, denominados bets” – Por Alexandre Cialdini

Alexandre Cialdini é o titular da Seplag-Ceará.

Com o título “Neuroeconomia e descontrole dos jogos on-line, denominados bets”, eis artigo de Alexandre Cialdini, pós-doutor em Administração e Políticas Públicas, economista e secretário do Planejamento e Gestão do Estado (Seplag). “(…) não deixem de assinar o manifesto “Bets Nunca Mais” (disponível em: https://betsnuncamais.com.br/). A iniciativa foi lançada por volta das 22h do dia 2 de novembro de 2026, no perfil de Eduardo Moreira, fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), e já está com mais de 1,5 milhão de assinaturas”, expõe o articulista

Confira:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva agiu corretamente ao proibir as bets por meio da Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro
de 2026.

O crescente mercado de apostas on-line no Brasil apresenta não apenas oportunidades econômicas, mas também desafios significativos relacionados à compulsão e ao bem-estar dos indivíduos. Compreender as bases neuroeconômicas do comportamento de apostas e utilizar as redes sociais como ferramentas de conscientização e intervenção pode oferecer soluções inovadoras para este problema complexo.

A economia tradicional baseia-se no conceito do Homo economicus — um agente perfeitamente racional que busca sempre maximizar a
sua própria utilidade. No entanto, os testes neuroeconômicos baseados em jogos demonstram que as nossas decisões são profundamente influenciadas por emoções e circuitos neurais de recompensa social.

A neuroeconomia, que combina insights da economia, psicologia e neurociência, oferece uma compreensão aprofundada de como o cérebro processa decisões financeiras e de risco. Áreas cerebrais como o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento e controle de impulsos, e o sistema de recompensa, que inclui o núcleo accumbens, ou seja, o principal centro de recompensa e motivação, desempenham papéis cruciais no comportamento de apostas. Entender esses mecanismos pode informar estratégias que ajudem a mitigar comportamentos compulsivos, promovendo decisões mais equilibradas.

Os pesquisadores George Loewenstein e Colin Camerer são dois dos principais expoentes mundiais da Economia Comportamental, cujo trabalho conjunto e individual transformou a ciência econômica ao integrar conceitos profundos da psicologia e da neurociência nos
modelos tradicionais de tomada de decisão.

As redes sociais, com seu alcance massivo e capacidade de engajamento, podem ser ferramentas poderosas na luta contra a compulsão por apostas. Elas oferecem uma plataforma para campanhas de conscientização que podem educar os usuários sobre os riscos e sinais de comportamento compulsivo. Além disso, grupos de apoio on-line e comunidades virtuais podem proporcionar espaços seguros para compartilhar experiências e buscar ajuda, incentivando práticas de jogo mais responsáveis.

A onipresença dos dispositivos móveis, funcionando 24 horas por dia nos sete dias da semana, e o avanço irrestrito das tecnologias de comunicação transformaram profundamente o mercado de jogos de azar no Brasil. O que antes exigia o deslocamento a cassinos físicos ou a dinâmicas locais controladas passou a se consolidar na forma de ecossistemas digitais de alta captação de atenção, operantes 24 horas por dia.

A proliferação das plataformas de apostas de quota fixa — popularmente denominadas bets — introduziu externalidades negativas severas, que ultrapassaram a esfera do entretenimento individual, tangenciando problemas crônicos de adicção comportamental e superendividamento em massa. Por isso, foi necessária a ação decisiva do Estado.

A decodificação desse cenário complexo exige o ferramental interdisciplinar da neuroeconomia, campo científico que une premissas teóricas da economia comportamental, da psicologia cognitivista e da neurociência funcional para mapear como o cérebro pondera riscos, custos e recompensas sob condições de assimetria temporal.

A vulnerabilidade do ser humano face às plataformas de apostas digitais está intrinsecamente ligada ao circuito dopaminérgico de
recompensa mesolímbico, que engloba estruturas profundas como o núcleo accumbens.

Os estudos experimentais clássicos demonstram que os picos de liberação do neurotransmissor dopamina ocorrem com maior intensidade durante a fase de antecipação e iminência do resultado do que no momento do ganho real em si.

A literatura mais recente no campo da neuroeconomia expandiu significativamente essa compreensão. Um estudo seminal publicado em 2026 no periódico científico Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging (disponível em https://www.biologicalpsychiatrycnni.org/ revelou, por meio de exames de ressonância magnética funcional (fMRI), que indivíduos expostos a contextos de apostas repetidas apresentam uma hiperativação patológica no estriado ventral — a central de processamento de relevância motivacional do cérebro.

O mapeamento cerebral demonstrou que a resposta cerebral de recompensa é registrada exclusivamente durante o período de espera e expectativa pelo resultado, e não pelo ganho financeiro. Sob o efeito desse fluxo dopaminérgico contínuo induzido pela interface rápida dos aplicativos, os circuitos que processam o aprendizado e as emoções passam a supervalorizar o ganho improvável, silenciando os sinais neurocognitivos de perda em potencial.

Conforme a Comissão de Saúde Pública da Lancet 1 sobre jogos de azar, cerca de 450 milhões de pessoas no mundo sofrem algum tipo
de consequência negativa decorrente das apostas. (disponível em //www.thelancet.com/commissions-do/gambling). Desse total, 80 milhões de pessoas sofrem de Transtorno do Jogo ou ludopatia grave (vício patológico). A pesquisa também constatou que os cassinos on-line/slots, relativos aos produtos digitais contínuos (como jogos de cassino virtuais e o Jogo do Tigrinho), possuem a maior taxa de vício: afetam 15,8% dos adultos e 26,4% dos adolescentes que os utilizam. No caso das apostas desportivas (bets), as taxas de dependência e de problemas comportamentais associados atingem 8,9% dos adultos e 16,3% dos jovens envolvidos.

Diferentemente de modalidades tradicionais de loteria oficial, a arquitetura das bets elimina o tempo de transação. O ciclo completo
consome-se em segundos. Esse bombardeio intermitente provoca uma exaustão funcional crônica sobre o córtex pré-frontal. Incapaz
de processar respostas inibitórias na velocidade exigida pelos algoritmos das plataformas, o cérebro abdica da tomada de decisão racional, gerando um estado de impulsividade artificialmente induzida.

Sob a ótica da neuroeconomia, estas plataformas digitais exploram falhas cognitivas na tomada de decisão humana, com ênfase no viés do desconto hiperbólico e nos mecanismos neurobiológicos de antecipação, gerando severas externalidades sociais e de saúde pública. Incorporando a literatura científica recente de neuroimagem (2024–2026), pesquisas robustas demonstram como a interface digital altera o sistema estriatal de recompensa e subjuga o controle inibitório pré-frontal.

A literatura mais recente no campo da neuroeconomia expandiu significativamente essa compreensão. (https://www.thelancet.com/commissions-do/gambling). Por mais de dois séculos, a revista The Lancet tem se notabilizado por tornar
a ciência amplamente acessível, para que a medicina possa servir e transformar a sociedade, bem como impactar positivamente a
vida das pessoas.

1 The Lancet é uma revista científica sobre saúde, que é publicada semanalmente. É uma das mais antigas e conhecidas revistas médicas do mundo e descrita como uma das mais prestigiadas. É publicada pela Elsevier no Reino Unido pelo Lancet Publishing Group. O periódico foi fundado em 1823 pelo médico e membro do parlamento inglês Thomas Wakley (1795 – 1862), que se manteve como editor por décadas.

O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou aumento nos atendimentos de pessoas com transtornos associados ao jogo nos últimos anos. Segundo o diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, foram 2.262 atendimentos em 2023 e 3.490 em 2024, uma alta de 54%. Entre janeiro e junho de 2025, o sistema contabilizou outros 1.951 atendimentos.

No campo econômico, o crescimento das bets também foi desastroso. Estudos indicam que 43% dos apostadores ativos admitem ter
subtraído recursos originalmente destinados a despesas essenciais como contas básicas (13%), pacotes de conectividade (15%) e
alimentação (12%). Adicionalmente, 24% dos apostadores frequentes sofreram negativação de seus CPFs junto ao SPC/Serasa.

Dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) indicam que o custo social total associado ao jogo problemático atinge R$ 38,8 bilhões por ano, dos quais o SUS absorve R$ 30,6 bilhões anuais em consequências sanitárias diretas. Esses valores dividem-se no tratamento de transtornos mentais (R$ 13,4 bilhões/ano) e impactos de mortalidade e tentativas de suicídio motivadas por colapso financeiro (R$ 17 bilhões/ano). Registrou-se um aumento de 140% em 5 anos na busca por atendimento na rede pública devido à dependência.

Estudos conduzidos pela consultoria LCA demonstram que o mercado clandestino ou irregular de apostas representa entre 38% e 44% do mercado total no país. Com uma carga tributária projetada em 27% sobre a atividade regular, a evasão fiscal provocada puramente pelas plataformas ilegais de apostas alcançou o patamar de até R$ 10,8 bilhões por ano em receitas não recolhidas.

Longe de constituir uma interferência arbitrária no livre mercado, a proibição total operou como uma intervenção sanitária e financeira
necessária para neutralizar os danos de um setor estruturado sobre falhas cognitivas sistêmicas. O estancamento da drenagem
orçamentária constitui o primeiro passo para a reabilitação do consumo produtivo real.

A incompatibilidade é, portanto, ontológica e biológica. O desporto nasceu para libertar o corpo e a mente através do esforço criativo; as apostas on-line foram desenhadas para aprisionar a mente através da exploração de falhas cognitivas. O desporto celebra a imprevisibilidade do potencial humano; a indústria das bets reduz esse potencial a uma métrica de exploração financeira, transformando o que antes era uma ferramenta de saúde e elevação cultural numa das maiores crises de saúde mental e econômica da era digital. O desporto é, historicamente, um dos pilares da saúde pública, promovendo a homeostase biológica, aneurogênese e a socialização.

O filósofo Hans Ulrich Gumbrecht argumenta que a atração pelo desporto reside na revelação da forma física e na pureza do imprevisto. Infelizmente, as apostas on-line tentam racionalizar; e domesticar esse imprevisto através de estatísticas probabilísticas em tempo real. Pior: criam incentivos estruturais para a corrupção (manipulação de resultados ou match-fixing), destruindo a verdade filosófica do desporto.

O desporto como mercadoria asseptizada. Para a Teoria Crítica (Escola de Frankfurt), as plataformas on-line transformaram o desporto
numa indústria cultural extrema. O adepto deixa de ser um participante emocional de uma comunidade (tribalismo orgânico) para se tornar um consumidor isolado, cuja tela do celular dita a sua relação com o jogo. A psicologia do desporto sempre se baseou no desenvolvimento da resiliência, do controle emocional e da autoeficácia. O modelo das apostas e dos jogos on-line inverte estes processos neuropsicológicos.

O efeito de sobrejustificação (overjustification effect). A psicologia cognitiva demonstra que, quando uma atividade intrinsecamente
recompensadora (o prazer de jogar ou assistir a um desporto) é vinculada a uma recompensa extrínseca (dinheiro/apostas), a motivação intrínseca morre. O desporto deixa de dar prazer por si só; passa a causar ansiedade, dependendo estritamente do ganho financeiro.

A fragmentação da atenção e a dessensibilização. O desporto exige atenção plena, paciência e aceitação de momentos de monotonia
criativa (um jogo de futebol sem gols, uma partida longa de tênis). O ecossistema das bets prospera na microaposta (apostar no próximo
canto, no próximo cartão). Isso fragmenta a psique do indivíduo, exigindo estímulos hiper-rápidos que mimetizam os algoritmos das redes sociais, destruindo a capacidade de contemplação do desporto.

A projeção neurobiológica da culpa. No desporto tradicional, a derrota gera frustração, mas também aprendizado e resiliência. No
ambiente das apostas, a derrota da equipe é internalizada como uma perda financeira pessoal. Isso transforma a paixão desportiva em
hostilidade e paranoia, em que o adepto desenvolve um rancor patológico contra o atleta que lhe fez perder o dinheiro.

No livre mercado, produtores e consumidores tomam decisões olhando apenas para os seus custos e benefícios privados. Quando uma ação gera um dano a terceiros, sem que haja compensação (a externalidade negativa), o mercado falha porque o preço do bem não reflete o seu custo real para a sociedade.

Portanto, não deixem de assinar o manifesto “Bets Nunca Mais” (disponível em: https://betsnuncamais.com.br/). A iniciativa foi lançada por volta das 22h do dia 2 de novembro de 2026, no perfil de Eduardo Moreira, fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), e já está com mais de 1,5 milhão de assinaturas.

O documento pede a manutenção da proibição das apostas, o fim dos patrocínios de empresas do setor a clubes de futebol, transmissões esportivas e influenciadores, além da garantia de atendimento público a pessoas com dependência em jogos e a famílias endividadas.

A ação vai ao encontro das iniciativas pioneiras desenvolvidas pelo Governo do Ceará, por meio da Secretaria do Planejamento e Gestão
(Seplag-CE) e da Escola de Gestão Pública do Estado do Ceará (EGPCE), para a educação financeira dos cearenses, incluindo o combate às bets.

Em parceria com a Fundação Demócrito Rocha, o Governo do Ceará lançou o curso Educação Financeira para Cidadania Plena, inicialmente
ofertado por meio da Universidade Aberta do Nordeste (Uane) e agora disponível gratuitamente na plataforma EGPCE Virtual, com acesso
aberto a toda a população.

Com carga horária de 144 horas/aula, distribuídas em 12 módulos, a formação aborda temas como planejamento financeiro, consumo
consciente, prevenção ao superendividamento, investimentos, segurança digital e riscos associados às apostas on-line. O curso é oferecido na modalidade de educação a distância (EaD) e pode ser acessado em https://escola.egp.ce.gov.br/catalogo/1850.

*Alexandre Sobreira Cialdini

Pós-doutor em Administração e Políticas Públicas, economista e secretário do Planejamento e Gestão do Estado (Seplag).

P.S Este artigo contou com a colaboração valiosa de João Pedro Sobreira Borges, médico R1 do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, vinculado à Secretaria de Saúde do Ceará.

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