Com o título “A Elegância de um Vicio”, eis artigo de Mantovanni Colares, desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, professor e escritor. “
Confira:
As comemorações dos 80 anos de nascimento do multiartista Belchior (poeta, compositor, cantor e pintor) invadiram elegantemente as mídias, a mostrar a riqueza de seu trabalho, ressaltando a profundidade desse cearense com o qual aprendemos a conviver no âmbito de suas músicas em várias etapas de nossas vidas.
São muitas matérias bem elaboradas, destacando um de seus álbuns mais festejados, o “Alucinação” (1976), sua trajetória que levou Elis Regina a imortalizar canções até hoje cultuadas, bastando lembrar “Como Nossos Pais” (1976); sem falar em “Mucuripe” (1970), em parceria com Fagner, a merecer interpretações inesquecíveis, tal a de Roberto Carlos.
Atrevo-me a integrar esse rol comemorativo, apontando algo que a meu ver não pode ser esquecido: o Belchior intérprete; não me refiro aqui à marca de sua voz diferenciada, potente, agreste, a nos emocionar ainda hoje ao ouvirmos “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (1976). Quero falar do Belchior intérprete de cantigas de outros autores, numa experiência muito especial que tive ao encontrá-lo na porta de embarque de um aeroporto e manifestar esse meu espanto diante do Belchior cantor de outras canções fora de seu repertório.

“Vício Elegante” (1996). Confesso não lembrar exatamente como esse disco – estávamos na época do CD, o compact disc – veio parar em minhas mãos. Todavia, recordo como se fosse hoje o impacto ao ouvi-lo, simplesmente não acreditava estar diante de uma audição diferenciada, de um Belchior transitando entre a sofisticada “Almanaque” (1981/Chico Buarque) até à rotulada como brega “Aparências” (1981/Márcio Greyk), com inovação interpretativa da magnética “Esquadros” (1992), até então conhecida na voz da autora da canção, Adriana Calcanhotto.
À medida em que ouvia Belchior passeando por tantos estilos, não conseguia me desgrudar do disco. A única desconhecida para mim, e que dava nome ao álbum, “Vício Elegante” (1996), música inédita dele, em parceria com o também cearense Ricardo Bacelar, produtor do CD. Muito tempo depois soube da fantástica história dessa composição e do próprio nascimento do disco, isso está registrado num interessante artigo escrito pelo Bacelar, logo abaixo deste texto colocarei o acesso para quem se interessar.
Bem, o fato é que ouvi muitas vezes aquele trabalho primoroso; jamais imaginei, porém, que algum tempo depois, ao embarcar num voo para São Paulo, eu me depararia com o próprio Belchior a seguir no mesmo voo. Pensei duas vezes se deveria abordá-lo na sala de embarque, sempre me pareceu desconfortável chegar perto de um artista e invadir sua privacidade. Mas ali estava Belchior, sozinho, pensativo. Resolvi me arriscar.
– Desculpe, Belchior, não quero lhe incomodar, mas não poderia deixar de dizer que estou simplesmente encantado com seu disco “Vício Elegante”, um trabalho primoroso e surpreendente de intérprete.
Ele abriu um sorriso largo, agradeceu e perguntou do que mais gostei.
– Olha, são tantas canções diferentes em estilo, fica difícil apontar uma, mas vou lhe confessar: ainda estou impactado com sua intepretação de “O Tolo” (1989, Roberto e Erasmo Carlos).
Nem esperei ele perguntar o porquê, emendei logo com essa observação, ele com olhos atentos ao que eu falava…
– Uma canção que tem a marca de um Roberto Carlos, não é fácil fazer nova leitura… a interpretação dele é mais romântica, numa cadência própria de seu estilo, mas você, Belchior, fez da canção um lamento, um grito de desespero que parece nos atravessar como se fosse uma súplica diante do inevitável abismo da paixão.
Eu nem sei como consegui reunir essas palavras, já estava me considerando um intruso e roubando o tempo dele. Mas valeu pelo momento
seguinte. Ele olhou para mim, sorriu com os olhos, e disse: eu fico muito agradecido por sua sensibilidade… puxou um papel do bolso – era o tempo no qual ainda não se faziam selfies em celulares –, perguntou meu nome e escreveu algo, me entregou, fiquei sem fala, disse um obrigado muito timidamente.
– Está indo a São Paulo? Farei um show lá, apareça, vai ser um prazer lhe receber depois do show no camarim.
Eu me despedi, agradeci mais uma vez, disse que iria sim, mas não fui, talvez por achar que seria abusar da gentileza dele, imaginei ele ter falado aquilo por pura fidalguia, eu nem sei se teria essa liberdade de após o espetáculo ir ao camarim e dizer: “Belchior me convidou…”.
Só tive coragem de olhar o papel quando embarquei no avião. E foi uma emoção imensa. Está aí abaixo o autógrafo, guardo até hoje. Aquela letra incrível, gótica, feita tão rapidamente e numa naturalidade, mas é um desenho, belo desenho. Abraços e canções. Eu me senti abraçado.

Depois daquele episódio e de minha arrependida escolha de não ir ao show, fiquei com a certeza de que jamais me encontraria novamente com Belchior.
O destino, porém, tem suas peripécias. Algum tempo depois daquele dia, tive o privilégio de almoçar com ele, num encontro concretizado pelo querido e saudoso publicitário Tarcísio Tavares, o “Tetê das Madrugadas”; até pude falar com Belchior sobre “Paralelas”, uma das maiores obras da nossa música popular.
Mas essa é outra história… por enquanto, nos 80 anos do gênio Belchior, eu lhes conto essa, do dia em que recebi do artista, com sua letra incrivelmente marcante, abraços e canções.
*Mantovanni Colares
Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, professor e escritor.
P.S. Atividades que terminam com o fonema “or” na forma fechada, circunflexa (ôr) e não aguda (ór). Tal o nome Belchior que, como ele mesmo dizia, tinha a pronúncia “Belchiôr” e não “Belchiór”; Belchior rimando com cantor, ele arrematava com aquele largo sorriso.