Com o título “Benito e o ostracismo”, eis artigo de Gilson Barbosa, jornalista e pesquisador. “(…) a mídia destes tempos muitas vezes privilegia a total pobreza de letra, de música, de talento desses “artistas” de sucesso artificial e efêmero na atualidade. Ao mesmo tempo, simplesmente apaga da memória das novas gerações a lembrança desses grandes cantores. Estes só viram notícia novamente quando morrem. Isto é injusto!”, expõe o articulista
Confira:
Ao final da noite de domingo, dia 18 de outubro próximo passado, o Brasil soube da morte de Benito di Paula (1941-2026). Aos 84 anos, o criador de sucessos que alegraram milhões de fãs partiu, vitimado por um câncer contra o qual lutava havia mais de um ano. Benito, nascido Uday Vellozo, na cidade de Nova Friburgo (RJ), foi o introdutor do piano no ritmo do samba, criando um estilo totalmente diferenciado do samba tradicional. Vendeu mais de 50 milhões de discos numa época em que o talento dos artistas era medido pela carreira que construíam, pelos sucessos que alcançavam nas paradas de rádio, os shows realizados por todo o território nacional e os programas de auditório da TV. Como tantos outros que viveram aqueles tempos de glória musical, alcançou o merecido reconhecimento por parte de seguidas gerações de fãs.
Hoje em dia, é inimaginável, para essas novas gerações, entender como era duro, para um artista iniciante e de autêntico brilho, atingir o auge da carreira. Não havia plataformas musicais, nem uma quantidade de acessos às canções que hoje são lançadas de forma equivalente à dos discos do passado. O(a) cantor(a) iniciante, então, “suava” muito para chegar ao estrelato. Benito di Paula foi um desses lutadores, como tantos outros, visitando emissoras de rádio nas principais cidades do país, nos quais eram entrevistados e lançavam aquele novo trabalho
musical. Era assim no passado, e assim também era construída, sem as facilidades ou as redes sociais de hoje, a trajetória de um novo criador de sucessos.
Nos dias seguintes ao falecimento de Benito di Paula, acompanhei diversas mensagens, nas redes sociais, em que as pessoas se referiam ao ostracismo a que são relegados grandes cantores(as) neste país. A mais impactante manifestação veio do cantor e apresentador Ronnie Von (1944-). Ele relembrou a época em que ele mesmo, Benito di Paula, Roberto Carlos, Chico Buarque, Elis Regina e Tim Maia, entre outros artistas brasileiros, eram contratados do famoso empresário Marcos Lázaro (1925-2003), pioneiro do show business no Brasil.
Marcos, polonês de nascimento, agenciava os shows desses campeões de venda de discos por todo o país e Benito era um deles. Na mesma mensagem, Ronnie lamentou o esquecimento ao qual Benito di Paula foi relegado com o passar dos tempos, processo pelo qual passaram outros de seus contemporâneos. Na ocasião, criticou o fato de a mídia ter-se lembrado do falecido cantor e compositor somente quando do seu desaparecimento.
De fato, a mídia destes tempos muitas vezes privilegia a total pobreza de letra, de música, de talento desses “artistas” de sucesso artificial e efêmero na atualidade. Ao mesmo tempo, simplesmente apaga da memória das novas gerações a lembrança desses grandes cantores. Estes só viram notícia novamente quando morrem. Isto é injusto! É uma total falta de respeito e desvalorização com tanta gente realmente boa que realmente fez história na música nacional. Benito foi a mais recente vítima. Lamentável!
*Gilson Barbosa
Jornalista e pesquisador.