Com o título “A assimetria entre afetos e poder: o custo invisível dos conflitos de gênero”, eis artigo de Kleber Silveira, presidente da CAFAZ – Caixa de Assistência dos Servidores Fazendários Estaduais. “Os conflitos de gênero nas esferas amorosa e profissional emergem do profundo embate entre papéis tradicionais, separando as atribuições de homens e mulheres, e a busca por equidade. Embora se manifestem em ambientes distintos, essas tensões compartilham a mesma raiz cultural: estereótipos estruturais que moldam expectativas sociais e respostas individuais no cotidiano”, expõe o articulista.
Confira:
Alguns acontecimentos recentes nos fazem refletir sobre questões há muito consideradas polêmicas, entre as quais podemos citar o equilíbrio entre a vida amorosa e o sucesso profissional, que afeta tanto homens quanto mulheres, mas, de uma forma assimétrica.
Os conflitos de gênero nas esferas amorosa e profissional emergem do profundo embate entre papéis tradicionais, separando as atribuições de homens e mulheres, e a busca por equidade. Embora se manifestem em ambientes distintos, essas tensões compartilham a mesma raiz cultural: estereótipos estruturais que moldam expectativas sociais e respostas individuais no cotidiano.
Longe de serem dilemas isolados, o teto de vidro nas empresas e a sobrecarga no lar são faces da mesma moeda. No âmbito profissional, o conflito se materializa na desigualdade de poder, remuneração e reconhecimento. Mulheres enfrentam barreiras invisíveis e expressivas disparidades salariais, além de um duplo padrão de julgamento cruel.
Comportamentos assertivos, frequentemente associados à liderança quando adotados por homens, ainda são vistos como agressividade quando partem de mulheres. Fenômenos como o silenciamento em reuniões e a chamada penalidade da maternidade, quando a competência profissional da mulher passa a ser questionada após ela se tornar mãe, revelam que o ambiente corporativo ainda reproduz estruturas e padrões historicamente marcados pelo privilégio masculino.
Essa rigidez pública ecoa diretamente no campo amoroso, onde a intimidade é sufocada pela divisão desigual do trabalho doméstico. Para além do esforço físico, a carga mental de planejar e gerenciar a rotina familiar recai desproporcionalmente sobre a mulher, gerando exaustão silenciosa e ressentimento.
O cenário se agrava quando o sucesso financeiro feminino rompe o mito do homem provedor, afetando a identidade masculina. Na comunicação, o bloqueio é mútuo: homens são pressionados a reprimir vulnerabilidades, enquanto mulheres são socializadas para priorizar a harmonia da relação em detrimento de si mesmas. A intersecção dessas forças torna-se crítica quando a ascensão na carreira é vista como
ameaça ao relacionamento.
Afinal, até que ponto a inserção da mulher no mercado representa emancipação real se a estrutura doméstica permanece arcaica? Como desconstruir a ideia de que o gerenciamento do lar é uma “habilidade natural” feminina, e não um trabalho invisível?
E de que forma o viés corporativo continuará punindo a maternidade enquanto a paternidade ativa não for uma exigência de corresponsabilidade?
Para mitigar esses conflitos, o caminho compreende letramento de gênero nas corporações, com políticas reais de equidade, e a desconstrução de papéis no lar, substituindo a dinâmica da “ajuda” pela parceria prática diária. Só haverá igualdade no espaço público quando houver justiça no ambiente privado.
*Kleber Junio Silveira
Presidente da CAFAZ – Caixa de Assistência dos Servidores Fazendários Estaduais.
kleber.silveira@cafaz.org.br