Com o título “A campanha antecipada da desinformação”, eis o título da coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Desconfiar de números milagrosos, verificar a origem das informações e exigir transparência não é ceticismo exagerado: é exercício básico de cidadania. Se a eleição ainda está distante no calendário, a batalha pela narrativa já começou”, expõe o colunista.
Confira:
Estamos há nove meses das eleições que irão definir o próximo presidente da República, governadores, senadores e deputados, mas o clima de campanha já tomou as ruas, e sobretudo, as telas. Não se trata apenas da disputa em torno de nomes e projetos, mas de uma corrida paralela, talvez mais intensa e perigosa, que é a da desinformação.
Basta um rápido passeio pelos chamados veículos de informação, e também pelos de desinformação, para perceber o volume e a discrepância das pesquisas eleitorais que circulam livremente. Há números para todos os gostos, ideologias e conveniências. Em um levantamento, Lula aparece à frente de Flávio Bolsonaro; em outro, o cenário se inverte de forma quase caricatural. O resultado é uma verdadeira salada estatística que mais confunde do que esclarece o eleitor.
O problema não está apenas na divergência natural entre metodologias, mas na ausência de critérios claros e, muitas vezes, de transparência mínima. Institutos surgem e desaparecem como se fossem perfis de redes sociais, sem histórico, sem registro no TSE e sem compromisso público com métodos verificáveis.
Recentemente, chegou-se ao cúmulo de um suposto instituto mexicano “dar seus pitacos” sobre o cenário brasileiro, como se a distância geográfica também não implicasse distância técnica e política.
Esse ambiente caótico favorece narrativas prontas, alimenta bolhas e mina a confiança em dados sérios. Em vez de ajudar o eleitor a formar opinião, transforma a pesquisa, instrumento essencial da democracia, em arma retórica a serviço da confusão. Vale tudo para sustentar uma tese, ainda que à custa da verdade.
Diante disso, mais do que nunca, cabe ao eleitor cautela, senso crítico e responsabilidade. Desconfiar de números milagrosos, verificar a origem das informações e exigir transparência não é ceticismo exagerado: é exercício básico de cidadania. Se a eleição ainda está distante no calendário, a batalha pela narrativa já começou. E nela, a desinformação tenta sair na frente.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”.