“A difusa relação do capeta com os abençoados” – Por Luiz Henrique Campos

Daniel Vorcaro agora é o capeta. Foto: Reprodução

Com o título “A difusa relação do capeta com os abençoados”, eis título da coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Talvez estejamos diante de uma nova modalidade de amnésia política nacional. Algo como um “décimo primeiro mandamento” não escrito, que poderia bem ser “esquecerás convenientemente os pecados que cometeste — ou, ao menos, aqueles que foram fotografados”, expõe o colunista.

Confira:

Há algo de fascinante e profundamente revelador na velocidade com que certos personagens públicos mudam de estatuto moral no Brasil. Ontem, frequentavam as melhores mesas, eram convidados de honra em eventos sofisticados, patrocinavam encontros elegantes e compartilhavam fotos sorridentes com autoridades, influenciadores e gente de reputação supostamente imaculada. Hoje, transformaram-se, como em passe de mágica, no próprio capeta engravatado em forma de executivo.

O banqueiro agora associado a um dos maiores escândalos financeiros recentes do país vive exatamente esse fenômeno. Até pouco tempo atrás, era figura celebrada nas altas rodas do poder público e da iniciativa privada. Havia selfies, abraços, brindes e discursos elogiosos. Mas bastou o escândalo vir à tona para que a memória nacional passasse por curioso processo de purificação. Ninguém mais o conhece. Ou, se conheceu, esteve com ele, não lembra.

Políticos, influenciadores, modelos e até pessoas de bem, dessas que costumam mencionar Deus em cada segunda frase, passaram a tratá-lo como o demônio corporativo encarnado, ou invocado. Um capeta bem vestido, de terno caro e sorriso ensaiado. Curiosamente, o mesmo capeta que, até outro dia, era recebido com tapete vermelho e considerado exemplo de vencedor no mundo dos negócios.

O aspecto mais pitoresco dessa súbita demonização é que esse hoje amaldiçoado executivo chegou a emprestar suas asas para que alguns abençoados personagens da política e do mundo digital sobrevoassem o Nordeste em grande estilo, angariando almas para interesses eleitorais, sendo também o capeta, grande doador de campanhas políticas com dimensão nacional.

Voos elegantes, fotografados e celebrados, que certamente fariam remexer no túmulo figuras de devoção popular como Padre Cícero, Frei Damião e, quem sabe, até a menina Benigna. Agora, porém, garantem os abençoados passageiros que não sabiam de nada. Voavam, mas não sabiam em quais asas. Uma espécie de inocência aérea. Estavam lá, mas ignoravam quem pilotava o destino.

A cena faz lembrar aquela outra explicação igualmente celestial dada por um político flagrado com cerca de quatrocentos mil reais em dinheiro dentro de uma mala. Segundo ele, tratava-se apenas de pequeno lapso logístico. Havia esquecido de depositar o dinheiro no banco. Um esquecimento burocrático, quase doméstico, como quem sai de casa e esquece as chaves sobre a mesa ou a carteira de cédulas e documentos pessoais no carro.

Talvez estejamos diante de uma nova modalidade de amnésia política nacional. Algo como um “décimo primeiro mandamento” não escrito, que poderia bem ser “esquecerás convenientemente os pecados que cometeste — ou, ao menos, aqueles que foram fotografados”. É curioso observar como pessoas tão abençoadas se veem frequentemente cercadas por tantos episódios mundanos.

Basta acompanhar, por exemplo, certos debates recentes em comissões parlamentares, onde moral e memória costumam disputar espaço em narrativas seletivas. Em uma dessas sessões, senadora igualmente abençoada, famosa por já ter relatado ter visto Deus trepado em uma goiabeira (e quem sou eu para desconfiar?), não hesitou em apontar o dedo para as contradições de abençoados líderes religiosos suspeitos de relações ilícitas envolvendo dinheiro. Alguns desses, ressalte-se, useiros e vezeiros em se apresentar com o estereótipo típico do sucesso, exaltando a jovialidade, com milhares de seguidores e adeptos do culto ao corpo.

No Brasil, a política tem dessas coisas. O capeta muda de endereço com impressionante rapidez, enquanto os abençoados seguem firmes em sua santidade pública. Afinal, como todos parecem concordar agora, ninguém sabia de nada. E, se sabia, certamente já esqueceu, deixando a certeza de que é mais fácil remover montanhas do que descristalizar dogmas ou desfazer caras de pau.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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