“A expulsão do delegado da PF e o recado de Washington ao Brasil” –

Florestan Fernandes Júnior é jornalista

“A resposta à perseguição externa de autoridades brasileiras não pode ser hesitante: exige firmeza institucional”, aponta o jornalista Florestan Fernandes Júnior

Confira:

Os sinais dados pelo governo Trump ao expulsar do país o delegado da PF, Marcelo Ivo de Carvalho, são mais do que claros. Trata-se de uma retaliação e, ao mesmo tempo, de um aviso dirigido a agentes da Polícia Federal que atuam em investigações contra bolsonaristas envolvidos em corrupção ou em tentativas de golpe de Estado no Brasil.

Essa nova crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos teve início no dia 13 de abril, em Orlando, quando agentes do ICE prenderam o ex-chefe da Abin, Alexandre Ramagem. A detenção ocorreu no âmbito de uma cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e autoridades norte-americanas. Há mais de dois anos, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho atuava em Miami como representante oficial do governo brasileiro junto ao órgão responsável pela repressão à imigração nos EUA.

Ramagem permaneceu preso por apenas dois dias e foi colocado em liberdade na quarta-feira (15/04). Cinco dias depois, o delegado da Polícia Federal foi expulso do país sob a alegação infundada de tentar “manipular” o sistema de imigração e contornar pedidos de extradição relacionados ao próprio Alexandre Ramagem.

Condenado a 16 anos de prisão pela trama golpista, Ramagem fugiu do Brasil em setembro do ano passado. Para surpresa do governo brasileiro, o bolsonarista foi liberado dois dias após ser detido pelo ICE sem que, até agora, o governo estadunidense tenha apresentado explicações.

Na prática, a ausência de justificativa formal pouco altera o cenário. Nos Estados Unidos, a extradição depende de autorização do Departamento de Estado, atualmente sob comando de Marco Rubio, que mantém interlocução com figuras como Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.

Esse padrão não é isolado. Países governados pela extrema-direita internacional têm, em geral, oferecido proteção a bolsonaristas que buscam escapar de condenações impostas pela Justiça brasileira. No mês passado, por exemplo, o governo de Javier Milei concedeu refúgio político a Joel Borges Corrêa, condenado pelo STF a 13 anos e seis meses de prisão por participação nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

O contraste é evidente: enquanto milhares de imigrantes brasileiros enfrentam detenções e deportações em condições degradantes pelo ICE, integrantes da extrema-direita brasileira transitam com relativa facilidade. Muitos deles estabeleceram base nos Estados Unidos e, a partir de lá, articulam ações contra o STF e a soberania nacional, como se viu no episódio das sobretaxações promovidas por Trump, que afetaram o comércio bilateral. Entre os abrigados estão, além de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, nomes como Allan dos Santos, Júnior Pena, e até agentes da própria Polícia Federal que colaboraram com o projeto golpista.

Diante desse quadro, resta esperar que a expulsão de um agente da PF produza efeito inverso ao pretendido, servindo de estímulo para o aprofundamento das investigações sobre esquemas de desvio de recursos públicos associados ao bolsonarismo, já evidentes em casos como os do Banco Master e do INSS. Também é fundamental que o governo Lula responda com rapidez, adotando medidas de reciprocidade frente à decisão de Trump.

Outra urgência é garantir a segurança física de Amanda Ungaro, ex-modelo brasileira que, após 23 anos vivendo nos Estados Unidos, foi presa e deportada depois de envolver Donald Trump e Melania em denúncias relacionadas ao caso Epstein. Ex-companheira do empresário italiano Paolo Zampolli, que se valeu da amizade e do cargo de enviado especial do presidente para articular uma ação que resultou na deportação de Amanda Ungaro, assegurando a Zampolli a custódia do filho do casal. Aos 41 anos, Amanda representa um arquivo vivo das relações entre Trump, Melania e Jeffrey Epstein, condenado por comandar uma rede de exploração sexual de menores.

Mais do que episódios isolados, esses fatos revelam uma engrenagem internacional de proteção política que compromete qualquer acordo conjunto entre os dois países no combate ao crime organizado. A resposta à perseguição externa de autoridades brasileiras não pode ser hesitante: exige firmeza institucional. Com certeza a questão da soberania nacional será um dos temas fundamentais a serem debatidos na eleição.

Florestan Fernandes Júnior é jornalista, escritor e Diretor de Redação do Brasil 247

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