“A fome de quem já tem” – Por Gera Teixeira

Gera Teixeira é empresário. Foto: Divulgação

Com o título “A fome de quem já tem”, eis artigo de Gera Teixeira, jornalista e empresário. “Quem precisa comer hoje tem pouca liberdade para discutir o amanhã. Uma ajuda pode virar dívida de gratidão; um direito, favor eleitoral. Passam os mandatos. A pobreza fica. Certas fortunas prosperam”, expõe o articulista.

Confira:

Numa terra pobre como a nossa, há uma fome que não se resolve com pão. É a fome de quem já tem e continua querendo. Para certos donos do poder, governar o Estado e a capital parece pouco. O horizonte se alarga até Brasília, onde o dinheiro público ganha outra escala e as alianças podem abrir portas que o orçamento local mantém estreitas.

A pobreza do povo impõe limites à vida de todos. À ambição de alguns, serve de argumento para pedir mais recursos. Prometem combater a miséria, corrigir desigualdades, devolver dignidade. O discurso vem bem vestido. O povo espera de chinelos, numa fila que atravessa governos.

Não há mal em buscar apoio federal. Uma terra carente precisa de investimentos, obras e serviços. O problema começa quando a necessidade coletiva vira senha de acesso a vantagens particulares. Quando a verba chega e o cidadão continua procurando o remédio, a escola, a água, enquanto os próximos do poder parecem encontrar tudo.

Escândalos vultosos deixam atrás de si algo que as cifras não mostram: o tempo de quem esperou atendimento, a infância encurtada pela fome, o trabalhador que perdeu o dia atrás de um direito. Cada recurso desviado faz falta em algum lugar. Alguém paga por ele sem ter participado da festa.

E há quem se habitue tanto às benesses que já não saiba viver fora delas. Trata o cargo como patrimônio, o aliado como credor e o orçamento como herança. Troca de discurso, de companhia, de promessa. A disposição de permanecer é a mesma.

A miséria oferece a essa gente uma vantagem cruel: torna urgente qualquer alívio. Quem precisa comer hoje tem pouca liberdade para discutir o amanhã. Uma ajuda pode virar dívida de gratidão; um direito, favor eleitoral. Passam os mandatos. A pobreza fica. Certas fortunas prosperam.

*Gera Teixeira

Empresário e jornalista.

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