Com participação nacional e vozes plurais, o prêmio Prêmio de Literatura Unifor 2026 celebra a escrita como gesto de memória, resistência e reinvenção.
Em tempos de mensagens instantâneas e memórias cada vez mais curtas, a literatura insiste — e resiste — como um gesto de permanência. Foi nesse espírito que a Universidade de Fortaleza (Unifor) reuniu escritores de todo o país para mais uma edição do seu tradicional Prêmio de Literatura, em duas categorias: Cartas e Poesia.
Com cerca de 150 textos inscritos, vindos de diferentes regiões do Brasil, o concurso reafirma o que a palavra ainda pode: atravessar distâncias, sustentar afetos e provocar pensamento.
Mais do que premiar, o evento ecoa uma filosofia que parece urgente revisitar. Como disse Edson Queiroz, cuja memória inspira a premiação:
“Se algum dia vocês forem surpreendidos pela injustiça ou ingratidão, não deixem de crer na vida, de engrandecê-la pela decência e construí-la pelo trabalho.”
É, afinal, disso que trata a literatura: permanência.
O gênero carta: um diálogo entre ausentes
Nesta edição, um dos gêneros escolhidos foi a carta — esse território íntimo onde a escrita se torna quase confidência.
A escritora Ana Miranda, vencedora de dois Jabutis, destacou a potência do formato:
“A literatura é composta de tudo o que nós escrevemos. Um prêmio como esse promove movimentação em torno de um gênero. Isso dá oportunidade. Um prêmio é uma possibilidade de sonhar.”
Ela que teve a importante missão de ler todas as cartas enviadas para o concurso, foi além, ao definir a carta como um espaço de profundidade:
“É um diálogo entre ausentes. Permite uma expressão da vida mais profunda.”
A reflexão ganha ainda mais peso quando lembramos que grandes nomes da literatura — como Gonçalves Dias, Mário de Andrade, Fernando Sabino e Clarice Lispector — fizeram da carta um espaço de criação, pensamento e encontro.
Entre memórias, invenções e afetos
Os vencedores desta edição mostram como o gênero segue vivo — e pulsante.

O escritor Bruno Paulino, que conquistou um prêmio de dois mil reais, pelo primeiro lugar na categoria, apostou na fusão entre história e imaginação ao criar uma carta fictícia envolvendo personagens reais ligados ao Ceará:
“Caio Fernando Abreu era um excelente escritor de cartas e fazia isso como um passatempo. Ele dizia que as pessoas que gostam de cartas precisam fazer um esforço para que não se tornem obsoletas. Eu brinco que depois que li “Os Sertões” nunca mais tive juízo. É muito bom você brigar com o livro. Sou apaixonado por cartas. Para este concurso, inventei que, Pedro Wilson, ex-sócio de Edson Queiroz, escreveu uma carta a ele sobre Canudos, relatando da viagem (que supostamente ele teria feito) e eles discutindo questões como justiça social, desenvolvimento, progresso. E eu acho que essa foi a grande sacada que fez com que a carta fosse a premiada. Falou-se em justiça social, desenvolvimento e progresso. Acho que essa foi a grande sacada”, comemora o professor e escritor Bruno Paulino.
Já Kelly Garcia transformou memória em narrativa:
“Escrevi a partir da minha experiência como jornalista, resgatando a importância do Diário do Nordeste e a figura de Edson Queiroz. Sou filha do Diário do Nordeste. Lá foi onde eu comecei minha carreira, portanto, peguei as minhas memórias e agradeci por conta de ele ter iniciado esse jornal aqui em Fortaleza”, emociona-se Kelly Garcia, uma das escritoras selecionadas para compor a coletânea.
Há também quem escreva para lugares que não existem — e, ainda assim, dizem muito. Para Kelly, a carta é liberdade: um espaço onde até o imaginário ganha endereço.

A literatura como experiência vivida
Em outra vertente, a escrita surge como extensão da própria vida.
A jornalista Rita Brito emocionou ao transformar sua relação com a universidade em texto:
“Gosto muito de crônicas, de contos, mas aí me senti desafiada quando vi o concurso e, também, porque tenho um verdadeiro caso de amor com essa universidade. Afinal, me formei aqui, conheci o meu marido aqui, então a gente tem uma relação de muita gratidão por esse espaço. Sempre que eu venho aqui, me sinto muito feliz e muito tocada. A carta fala da minha formação profissional, mas também da minha vida pessoal. Foi aqui que construí minha história, minha família”, conta Rita Brito.

Já o poeta Alves Pereira, vencedor da categoria Poesia, com a obra Bestiário Elétrico, revela uma escrita atravessada pela experiência:
“A poesia fala o que muitas vezes não pode ser dito na prosa. Ela vem quando quer — e cabe a nós traduzir.”
Ele reforça um ponto essencial para quem escreve:
“É trabalho, trabalho, trabalho. A inspiração atravessa, mas a escrita exige rotina.”

Ler, escrever, partilhar
Para a curadora Aila Sampaio, o prêmio é mais do que uma celebração — é um chamado:
“Celebramos vozes que insistem e resistem pela palavra. Leiam, escrevam, partilhem. A literatura se expande na observação do mundo.”
Contra o esquecimento
Em um mundo mediado por telas, onde — como alertou Ana Miranda — “o computador pode ser um abismo para o esquecimento”, iniciativas como o Prêmio de Literatura Unifor reafirmam o valor da palavra escrita.
A carta, esse gênero aparentemente antigo, revela-se, na verdade, profundamente contemporânea: um espaço de pausa, de escuta e de elaboração.
Porque, no fim, escrever ainda é isso:
um gesto de presença — mesmo na ausência.