Com o título “A Fortaleza que mora em mim”, eis a homenagem de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico, aos 300 Anos da Capital cearense.
Confira:
Na cidade grande, com pressa, o olho corre na velocidade do pensamento.
Eu queria saber dizer com palavras o que digo com desenhos e pinturas. Escrever sobre os 300 anos de Fortaleza é um desafio do tamanho de um bonde. Enquanto essa cidade me emociona, a voz escrita embarga. Ainda assim, sigo pelos caminhos que me levam “ao longe, em brancas praias, embalada pelas ondas azuis dos verdes mares”, como poetizou Paula Ney.
Há quem diga que Fortaleza não tem história – ledo engano. História lhe sobra; o que muitas vezes falta é cuidado com a própria memória. Compartilho aqui fragmentos do que vivi nesta cidade nascida do Forte de Nossa Senhora da Assunção, erguido em 1726, que celebra seu aniversário todo 13 de abril.
Nasci em 1957, quando Fortaleza tinha cerca de 400 mil habitantes e a Aldeota ainda era um bairro distante, de quintais largos e ruas descalças. Minha infância foi vivida numa cidade pequena e tímida, onde o Centro pulsava com comércio e serviços. Lembro do consultório odontológico de meu pai, no Edifício Dr. César Cals, imponente aos meus olhos, com corredores largos e o som metálico do elevador de porta pantográfica.
Dali, eu ganhava as ruas: a Praça do Ferreira, a Coluna da Hora, a banca do Bodinho, o cheiro do pão da Lisbonense. Merendava na Leão do Sul, pesava-me na Farmácia Oswaldo Cruz, cortava o cabelo na Galeria Branca ou no Salão Rex, ao lado do Café Iracema, do meu avô. Aos sábados, visitava o armazém de um tio na rua Governador Sampaio.
Na casa dos avós, na Rua Visconde de Saboya, o rádio valvulado reinava entre cadeiras de balanço. Com a chegada da TV Ceará, em 1960, os costumes mudaram. Na Parangaba, íamos ao Sítio Guajiru; havia peladas, banhos de açude, bichos soltos e o silêncio cortado pelos aviões. Nas férias, passeávamos no ônibus elétrico Parangaba–Praça do Carmo.
A cidade crescia sem perder a simplicidade. Poucos prédios se destacavam, clubes abrigavam nossas descobertas, e o futebol no PV era vivido com respeito. Lembro do parque Shangai, do Circo Garcia, do Burra Preta cruzando o Centro com sua irreverência. Havia basquete, corridas de carro no Pici, depois no Autódromo Virgílio Távora, e o Simca Show, pura emoção.
Nos Reisados, carnavais e festas juninas, Fortaleza se revelava inteira: corso, mela-mela, maracatus, fogueiras, quadrilhas. Nos anos 1970, a Aldeota se verticalizou; vi o bairro mudar com saudade, mas também com esperança. Vieram a Gincana da TV Verdes Mares e o Tobogã ao lado do Clube dos Diários.
Aos domingos, a missa na Paróquia da Paz abria caminho para encontros na Visconde de Mauá. Depois, cinemas e lanchonetes. Na Beira Mar, o trailer do Gaúcho alimentava os notívagos. Na praia do “Oi da Pedra”, o surf nascia entre uma sensualidade ainda inocente e o encanto do mar.
Em 1974, inaugurou-se o Center Um; em 1978, a Praia do Futuro se consolidou como lazer popular. Nas décadas seguintes, Fortaleza se expandiu, adensou-se e enfrentou contrastes. Nos anos 1980, a redemocratização acendeu a cena cultural; vieram a visita do Papa João Paulo II, a dor do acidente da Vasp e, em 1980, até um pequeno terremoto.
Formado arquiteto em 1983, passei a ler a cidade com olhar atento, guiado também pela arte. A requalificação da Praia de Iracema devolveu o convívio e a alegria. A partir dos anos 1990, o crescimento trouxe visibilidade, mas também desigualdades. Em 2014, a Copa do Mundo reafirmou a capacidade de reinvenção.
Hoje, entre arranha-céus, viadutos e VLTs, o ritmo acelerou. Mas a Fortaleza que mora em mim – feita de afetos, vizinhanças e histórias – permanece viva. Desejo que siga sendo terra de encontros, justa, humana e poética.
Fortaleza é onde afino meu olhar e reencontro minha essência. Celebrar seus 300 anos é honrar o passado e desenhar, com palavras, o retrato de uma alma em constante transformação. Ser fortalezense é condição afetiva, estado de espírito – alegria, criatividade e coragem de viver com juízo e compromisso de ser feliz.
Parabéns, Fortaleza. Que tua luz siga brilhando na memória de quem te ama.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.