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“A frustração da queda dos juros” – Por Vanilo de Carvalho e Herbert de Carvalho Cunha

Vanilo de Carvalho e Herbert de Carvalho Cunha, advogados.

Com o titulo “A frustração da queda dos juros”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e mestre em Negócios Internacionais, e Herbert de Carvalho Cunha, advogado e especialista em Direito Imobiliário. “(…) o setor imobiliário encontra-se diante de uma encruzilhada. De um lado, carrega a força de um ciclo recente de expansão e a expectativa de juros mais baixos. De outro, convive com a frustração de cortes mais tímidos e com um ambiente macroeconômico ainda incerto”, expõem os articulistas.

Confira:

A recente decisão de política monetária, ao sinalizar uma redução de apenas 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, frustrou expectativas relevantes do mercado. Havia a percepção de que o movimento seria mais contundente, inaugurando um ciclo de alívio mais acelerado do custo do crédito. Essa frustração foi particularmente sentida no
mercado imobiliário, que aguardava uma queda mais expressiva para destravar o financiamento habitacional e ampliar o acesso ao crédito.

A lógica é conhecida: juros menores ampliam a capacidade de compra das famílias e estimulam investimentos. Não por acaso, estimativas do setor indicam que cada redução de 1 ponto percentual na taxa básica pode reinserir cerca de 160 mil famílias no mercado de financiamento imobiliário. Nesse contexto, uma queda tímida não apenas desacelera expectativas, como posterga decisões de compra, investimento e lançamento de novos empreendimentos.

Ainda assim, os dados recentes revelam um cenário paradoxal. O mercado imobiliário brasileiro tem apresentado crescimento consistente mesmo sob taxas de juros elevadas. Em 2025, o setor registrou alta de aproximadamente 10% e movimentou cerca de R$ 292 bilhões em vendas, além de alcançar mais de 426 mil unidades comercializadas, um
recorde histórico. Soma-se a isso uma valorização média dos imóveis de 6,52%, uma das maiores da última década.

Esse desempenho, à primeira vista contraditório, revela a resiliência do setor. Mesmo com a taxa Selic em patamares elevados — chegando a cerca de 15% ao ano em 2025 — o crédito imobiliário continuou a operar, ainda que mais seletivo. Em muitos casos, a demanda habitacional reprimida e a necessidade concreta de moradia mantiveram o
mercado ativo, tornando o financiamento uma alternativa ainda racional, mesmo em condições adversas.

Forma-se, assim, um paradoxo econômico relevante: juros altos, que teoricamente deveriam frear o crédito e o consumo, coexistem com crescimento nas vendas, lançamentos e valorização imobiliária. Parte dessa explicação reside na segmentação do mercado — com maior dinamismo em programas habitacionais e no segmento de médio e alto padrão — e na adaptação das instituições financeiras, que ajustam produtos e condições para manter o fluxo de crédito.

Além disso, o mercado imobiliário possui um efeito multiplicador expressivo sobre a economia. A cadeia da construção civil mobiliza uma ampla gama de setores — desde a indústria de materiais até serviços especializados — gerando empregos diretos e indiretos, estimulando renda e contribuindo significativamente para o PIB. O aquecimento do setor, portanto, não se limita à compra e venda de imóveis: ele se traduz em dinamismo econômico, expansão do emprego e fortalecimento de atividades correlatas.

Contudo, a sustentabilidade desse crescimento permanece em aberto. O cenário de 2026 ainda é marcado por incertezas. As projeções indicam uma taxa Selic ao redor de 12% ao final do ano, com revisões recentes que apontam leve instabilidade nas expectativas. Ao mesmo tempo, o próprio crescimento econômico projetado é moderado, o que pode
limitar a expansão da renda e do crédito.

Dessa forma, o setor imobiliário encontra-se diante de uma encruzilhada. De um lado, carrega a força de um ciclo recente de expansão e a expectativa de juros mais baixos. De outro, convive com a frustração de cortes mais tímidos e com um ambiente macroeconômico ainda incerto.

Resta, portanto, a dúvida central: o crescimento observado nos últimos anos representa o início de um novo ciclo estrutural ou apenas uma resistência momentânea diante de condições adversas? A resposta dependerá, sobretudo, da trajetória dos juros e da disponibilidade de crédito ao longo de 2026 — variáveis que continuam a ditar o ritmo e os limites da expansão imobiliária no Brasil.

*Vanilo Cunha de Carvalho Filho

Advogado e Mestre em Negócios Internacionais

*Herbert de Carvalho Cunha

Advogado e Especialista em Direito Imobiliário.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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