“Cada imagem carrega não apenas um instante capturado, mas uma cadeia de decisões, riscos e mediações invisíveis ao olhar apressado”, aponta o jornalista Luis Sérgio Santos
Confira:
No último sábado, 28 de março de 2026, às 10 da manhã, o Museu da Fotografia de Fortaleza abriu suas portas para a exposição “Ucrânia: de Donbas a Kiev – 12 anos de guerra” . E não foi apenas uma abertura — foi um acontecimento.
Com fotografias do jornalista Yan Boechat e curadoria de Fernando Costa Netto, a mostra se impõe como uma experiência densa, precisa e, sobretudo, necessária. Há um rigor silencioso na forma como tudo foi pensado: a expografia é minuciosa, delicada, quase cirúrgica. A exposição se organiza em três ambientes, mas sem ruptura espacial — tudo acontece no mesmo amplo espaço do segundo andar do MFF, como se o tempo da guerra se comprimisse em camadas simultâneas.
Ali, o visitante não percorre apenas imagens; atravessa uma geografia de tensão. O Museu da Fotografia de Fortaleza — um equipamento cultural de padrão internacional em arquitetura, serviço e concepção — se confirma, mais uma vez, como espaço de pensamento. Mantido pelo Instituto Paula e Sílvio Frota, o museu oferece aqui não só uma exposição, mas uma imersão.
O que está em jogo vai além do fotojornalismo. Há técnica, método, procedimento — e, sobretudo, ética. Cada imagem carrega não apenas um instante capturado, mas uma cadeia de decisões, riscos e mediações invisíveis ao olhar apressado.
A abertura ganhou ainda mais densidade com uma conversa no auditório do Instituto, reunindo Yan Boechat e Fernando Costa Netto, sob mediação de Sílvio Frota. Longe do tom protocolar, o encontro revelou os bastidores da cobertura de guerra: logística, deslocamento, a função crucial dos fixers, os riscos iminentes e aqueles que sequer podem ser previstos. Esse tipo de conversa, rara, desmonta o mito do fotógrafo-herói solitário e revela a engrenagem inteira por trás da cobertura de conflitos.
Foi um momento raro, em que o público teve acesso não apenas ao resultado final — as imagens —, mas à engrenagem que as torna possíveis. Quando as perguntas começaram a surgir da plateia, a distância entre autor e espectador se dissolveu mais ainda; experiência compartilhada.
Perguntei a Silvio Frota em quanto tempo aquela exposição foi instalada no ambiente do Museu: 15 dias, algo inacreditável. Tem até uma réplica da estátua de Lenin com a cabeça “degolada” na sala onde dezenas de Lenins foram destruídas Ucrânia afora.
Em meio às fotografias, um objeto salta aos olhos: um colete de imprensa, estufado, pesado, quase opressivo. Não é um elemento cenográfico gratuito — é um corpo ausente. Um lembrete físico do risco, da vulnerabilidade e da presença humana por trás de cada registro. Ele interrompe o fluxo contemplativo e reancora a experiência no concreto.
A exposição segue em cartaz até 30 de agosto de 2026. Tempo suficiente — espera-se — para que mais pessoas atravessem esse território de imagens e saiam dele um pouco diferentes.
Porque há exposições que se visitam. E há aquelas que nos atravessam.
Luis Sérgio Santos
Jornalista e Professor de Jornalista da UFC
Yan Boechat
Jornalista e Fotógrafo de Guerra. Trabalhou na Revista IstoÉ