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“A herança maldita do tio Ferreira” – Por Paulo Rogério

Paulo Rogério é jornalista.

“Sem ter colocado filhos no mundo, mais preocupado em acumular riquezas, ele era cuidado pelos empregados”, aponta o jornalista Paulo Rogério

Confira:

– O tio Ferreira morreu! O tio morreu!

A notícia chegou seca e fria pelo grupo do WhatsApp da família. Aliás, a morte do velho irmão da mãe era esperada. Aos 90 anos e acamado em seu apartamento na zona nobre da cidade há vários meses, o famoso advogado de outrora, tinha se reduzido a um pequeno volume de carne e osso coberto por um lençol.

Sem ter colocado filhos no mundo, mais preocupado em acumular riquezas, ele era cuidado pelos empregados que contratou quando ainda tinha saúde: um motorista, a cozinheira, a empregada da casa e uma secretária. As más línguas da família diziam que o tio manteve um caso amoroso com a última durante boa parte da vida. E que a mesma possuía uma condição financeira bem acima do parco salário que recebia. Mas nunca ninguém viu nada.

A notícia da morte trouxe junto aqueles comentários de sempre. Frases cheia da falsidade humana:

– Que pena, vai deixar saudade! Escreveu a prima solteirona, colocando a carinha de um bonequinho chorando. Outra lembrou das vezes que ele chegava na casa da mãe, irmã dele, sempre levando algo.

– Teve uma vez que ele chegou lá em casa com uma cesta repleta de bombons. Foi uma festa só naquela Páscoa…kkkkk.

– Eu lembro, mamãe até brigou com a gente porque não tínhamos deixado nada para os primos, riu Catarina, a mais nova das filhas de dona Tereza, a irmã de Ferreira, falecida há dez anos. O papo durou pouco, não havia muito o que falar do velho. Até que surgiu a pergunta que todos tinham em mente e ninguém parecia com coragem de pronunciar: Afinal, o que vai acontecer com a fortuna do tio? Nós vamos ter direito mesmo? Alguém indagou. Sim, sim, sim, repetiu-se no grupo.

José Ferreira era advogado e contador dos bons da cidade. Dedicou a vida toda à contabilidade de grandes empresas. Sempre teve amizade com empresários famosos que foram acumulando riquezas. Ele cresceu no mesmo ritmo. Investiu em imóveis, muitos. Só o seu escritório ocupava um andar inteiro de um prédio no Centro da cidade. Tinha carros, joias e um belo apartamento no Meireles.

Casou cedo, mas nunca teve filhos. Não quis adotar qualquer rebento, vivendo, ele e a mulher exclusivamente um para o outro. Pouco cuidou da vida social. Não era de fazer visitas aos irmãos, irmãs ou agrados a sobrinhos. Ficava na dele. Se precisassem, podiam chamá-lo. Se não fosse para pedir dinheiro, melhor ainda.

Uma vez foi visitar a irmã Tereza que estava adoentada, com Alzheimer. Comentou com os irmãos que a achou magra, abatida e que ela havia pedido dinheiro. Acabou criticado pelas sobrinhas. Foi xingado e esquecido. Pior, foi impedido de ir ao velório da própria irmã por duas das filhas dela. Resolveu, então, afastar-se e cuidar dos cachorros que tinha.

Logo a esposa caiu doente, depois ele. Foi montado um mini hospital em casa com a cama dos dois, lado a lado. Não havia visitas. Só os empregados e a secretária fiel. O quadro parecia lógico, era questão de tempo, o que fez crescer os olhos dos possíveis herdeiros. Na surdina, especulava-se sobre a herança. É na escuridão do silêncio que as tramas surgem. O casal demorou a sair de cena. Ferreira foi o último, abrindo sorrisos embutidos nos quase 30 sobrinhos e irmãos. Todos herdeiros diretos.

– Vou comprar uma casa para minha filha, disse um deles.

– Eu vou pagar minhas dívidas e cuidar da saúde, pensou uma outra. Cada um foi fazendo as contas e anotando os sonhos a serem realizados. Formou-se o grupo, nomeou-se advogado e foram à luta. Pela primeira vez, a família Ferreira parecia unida. Graças ao espólio abençoado. O tamanho da fortuna não se sabia ao certo. Eram quase 40 imóveis, dinheiro no banco, joias, carros. O pote de ouro no fim do arco-íris.

A união durou pouco e a alegria virou aborrecimento. As desconfianças surgiram rapidamente. Uma simples gaveta da mesa do escritório do tio, trancada, demonstrou o tom da ambição do clã. Sem a chave, decidiram arrombar. Lá dentro uma caixa, também trancada. O que teria? Um anel valioso? A chave de um cofre? Que raios de mistério era esse! Uma martelada resolveu.

Vazio. Não havia nada. Aliás, até hoje não há nada na mão de ninguém. O grupo já se desfez e a união projetada caiu em ruínas. Irmão desconhece irmão, primo desconfia de prima, tio de sobrinha. Uma das herdeiras já faleceu – a Catarina. Outros estão bem pertinho.

A dúvida que ficou é se tio Ferreira, exímio advogado, sabendo que não tinha herdeiros, deixou a herança para todos com um objetivo: Ou tentar unir a família que nunca teve, ou punir cada um que o esqueceu durante a vida. A afinal, enquanto o processo durar, todos vão lembrar dele todos os dias.

Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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