“A ilusão da guerra curta e o custo das certezas apressadas” – Por Luiz Henrique

Ataque do Irã contra base dos EUA em Bahrein

“A superioridade bélica dos Estados Unidos e de Israel não se traduziu em vitória rápida, porque conflitos modernos raramente obedecem à lógica da força pura”, aponta o jornalista Luiz Henrique Campos

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Havia, no início, a crença quase arrogante de que a ofensiva contra o Irã seria rápida, cirúrgica e decisiva. Uma guerra relâmpago, dessas que cabem mais nos manuais estratégicos do que na realidade. O tempo, no entanto, tratou de desmontar essa fantasia com a precisão que só os conflitos prolongados sabem ter.

O erro não foi apenas de cálculo militar. Foi, sobretudo, de leitura política. Apostou-se que o regime iraniano sucumbiria à pressão externa, que a população se insurgiria e que o colapso viria quase por inércia. O que se viu foi o oposto. Resiliência interna, reorganização e um país que, sob ataque, encontra na coesão a necessidade de sobrevivência.

Repete-se o padrão histórico que insiste em ignorar a complexidade do Oriente Médio, com guerras iniciadas e promessas de brevidade não se confirmando, e encerradas — quando encerradas — após anos de desgaste. A superioridade bélica dos Estados Unidos e de Israel não se traduziu em vitória rápida, porque conflitos modernos raramente obedecem à lógica da força pura.

O Irã, longe de buscar confronto convencional direto, opera na lógica da assimetria. Prolonga o conflito, espalha tensões, pressiona economicamente e transforma cada avanço adversário em custo político crescente. Não se trata de vencer rapidamente, mas de impedir que o outro vença.

E é justamente aí que reside o risco de escalada. Não necessariamente guerra mundial clássica, com blocos bem definidos, mas expansão difusa. Mais atores indiretos, mais instabilidade regional, mais impactos econômicos globais — especialmente no petróleo e nas rotas estratégicas. Nesse jogo de narrativas, um conflito que se amplia sem necessariamente explodir, mas que corrói lentamente a estabilidade internacional.

No longo prazo, porém, há efeito ainda mais sensível e menos mensurável que trabalha com o desgaste de imagem. A continuidade de ações militares, sobretudo quando percebidas como desproporcionais ou prolongadas, tende a alimentar sentimento crescente de rejeição em diferentes partes do mundo. Não apenas aos governos, mas, perigosamente, aos povos.

Esse é um terreno delicado. A história mostra que guerras prolongadas frequentemente transbordam da crítica política para a generalização cultural — um erro grave, mas recorrente. A percepção internacional pode, aos poucos, deslocar-se da análise estratégica para a rejeição difusa, atingindo cidadãos comuns que nada têm a ver com as decisões de seus governos e líderes amalucados.

Assim, o que começou como promessa de solução rápida pode terminar como problema de longo prazo, para não dizer, duradouro. Uma guerra sem desfecho claro, uma ordem internacional mais instável e um aumento silencioso — porém persistente — de tensões entre sociedades. No fim, a lição parece antiga, mas continua ignorada. Iniciar uma guerra é sempre mais simples do que prever onde — e em que estado — o mundo estará quando ela terminar.

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