Com o título “A importância da construção civil na agenda climática do Brasil”, eis artigo de Cândido Henrique de Aguiar Bezerra, geógrafo especialista em Gestão Ambiental, MSc, Geodinâmica e Recursos Minerais e consultor em Desenvolvimento Industrial – SENAI/FIEC. “Colocar em prática os compromissos assumidos na COP-30 exige que a gestão ambiental deixe de ocupar um papel periférico e passe a integrar o núcleo da estratégia empresarial da construção civil”, expõe o articulista.
Confira:
A construção civil ocupa hoje uma posição central no debate climático global, e esse papel tornou-se ainda mais evidente após a realização da COP-30, no Brasil. O evento marcou a transição definitiva do discurso para a ação e consolidou compromissos que agora precisam ser traduzidos em práticas concretas, mensuráveis e verificáveis. Nesse novo contexto, a agenda climática deixou de ser apenas uma pauta institucional e passou a influenciar diretamente o comportamento do mercado, dos investidores, dos agentes financeiros e, sobretudo, dos consumidores finais.
O perfil do comprador de imóveis, especialmente no segmento de alto padrão, mudou de forma significativa. Clientes mais informados e exigentes passaram a incorporar critérios ambientais nas decisões de compra, valorizando empreendimentos com menor pegada de carbono, maior eficiência energética e transparência quanto aos impactos ambientais ao longo do ciclo da obra. A sustentabilidade, nesse cenário, deixa de ser um atributo intangível de marketing e passa a compor o valor percebido do imóvel, influenciando preço, liquidez e reputação das incorporadoras.
Paralelamente a essa transformação do comportamento do consumidor, o início do mercado regulado de carbono no Brasil introduz uma nova lógica de compliance e gestão de riscos para o setor da construção civil. Bancos, instituições de fomento e agentes financeiros passaram a exigir, de forma crescente, a apresentação de inventários de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) das obras a serem financiadas como pré-requisito para a concessão de crédito. O inventário deixa de ser uma boa prática voluntária e passa a integrar o conjunto de exigências formais de governança, transparência e gestão de riscos do negócio.
Nesse ambiente, a gestão ambiental no canteiro de obras assume um papel estratégico. O canteiro, historicamente associado a desperdícios, consumo intensivo de materiais e uso extensivo de combustíveis fósseis, passa a ser reconhecido como um espaço decisivo para a mitigação de emissões e para a redução de riscos financeiros e operacionais. A adoção de inventários de GEE estruturados segundo metodologias reconhecidas permite identificar fontes de emissão, priorizar ações de mitigação e demonstrar, de forma objetiva, o comprometimento da construtora com as metas climáticas assumidas pelo país.
Evidências técnicas indicam que até 97% das emissões associadas a um empreendimento da construção civil estão concentradas nos materiais de construção, especialmente na produção de insumos como cimento, aço e componentes estruturais, respondendo por cerca de 90% da pegada de carbono total da edificação. Já no canteiro de obras, as emissões decorrem principalmente do consumo de combustíveis por máquinas e equipamentos, do uso de energia elétrica, das perdas de materiais e da gestão de resíduos. Embora representem uma parcela menor do total, essas emissões são aquelas sobre as quais a construtora possui maior controle direto e imediato, tornando-se alvos prioritários de gestão no curto prazo.
A leitura integrada das emissões diretas e indiretas ao longo do ciclo da obra permite uma abordagem mais eficiente da mitigação climática e da gestão de riscos. As emissões diretas estão associadas à queima de combustíveis no canteiro, enquanto as indiretas decorrem do consumo de eletricidade e do carbono incorporado na cadeia de suprimentos. Compreender essa dinâmica é essencial para orientar decisões de projeto, seleção de fornecedores, planejamento logístico e adoção de tecnologias construtivas de menor intensidade carbônica.
Indicadores de sustentabilidade bem estruturados transformam dados técnicos em informação estratégica, apoiando a tomada de decisão tanto na esfera operacional quanto financeira. Métricas como a intensidade de carbono por metro quadrado construído, cuja média nacional gira em torno de 220 kg de CO₂ equivalente por metro quadrado, permitem comparar empreendimentos, identificar ineficiências e demonstrar alinhamento com as metas climáticas nacionais. Para o sistema financeiro, esses indicadores funcionam como instrumentos objetivos de avaliação de risco, influenciando diretamente as condições de crédito ofertadas.
No contexto pós-COP-30, a relação entre desempenho ambiental e custo do capital torna-se cada vez mais explícita. Empreendimentos que apresentam inventários auditáveis, estratégias claras de redução de emissões e gestão ambiental integrada tendem a acessar linhas de financiamento verde, com menores taxas, spreads reduzidos e prazos mais competitivos. Por outro lado, obras que não incorporam essas práticas passam a ser percebidas como ativos de maior risco climático, regulatório e reputacional, refletindo-se em condições financeiras menos favoráveis.
Colocar em prática os compromissos assumidos na COP-30 exige que a gestão ambiental deixe de ocupar um papel periférico e passe a integrar o núcleo da estratégia empresarial da construção civil. No canteiro de obras, cada decisão relacionada à redução de desperdícios, à eficiência energética, à otimização logística e à escolha de materiais de menor intensidade carbônica contribui não apenas para a redução das emissões nacionais, mas também para a mitigação de riscos do empreendimento e para a geração de valor econômico.
Nesse novo ciclo, a sustentabilidade consolida-se como um conceito ampliado de eficiência, competitividade e segurança financeira. O canteiro de obras transforma-se em um espaço estratégico onde se conectam exigências regulatórias, expectativas de mercado e compromissos climáticos. Construtoras que compreendem essa mudança e utilizam indicadores de emissões de GEE como ferramenta de gestão demonstram que é possível alinhar rentabilidade, acesso a crédito e desenvolvimento urbano com as demandas ambientais do
século XXI.
*Cândido Henrique de Aguiar Bezerra
Geógrafo, especialista em Gestão Ambiental, MSc, Geodinâmica e Recursos Minerais e consultor em Desenvolvimento Industrial – SENAI/FIEC.