“A influenza A e os reflexos do negacionismo” – Por Luiz Henrique Campos

Cinco tipos de vírus se espalham pelo país. Foto: Reprodução

Com o título “A influenza A e os reflexos do negacionismo”, eis a coluna “Fora ds 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “A vacinação, historicamente das maiores fortalezas do sistema de saúde brasileiro, já não alcança os mesmos níveis de adesão. E isso tem cobrado preço silencioso”, expõe o coluista.

Confira:

O Brasil volta a conviver com velho conhecido que nunca deixou de existir, mas que por período esteve ofuscado, que é a influenza A. Em meio à ressaca sanitária provocada pela COVID-19, o vírus da gripe retoma protagonismo, não apenas em número de casos, mas sobretudo na gravidade das internações e no aumento proporcional de mortes.

O que mais chama atenção nesse novo cenário não é apenas a circulação do vírus — algo esperado com a retomada da normalidade —, mas a fragilidade da resposta coletiva. A vacinação, historicamente das maiores fortalezas do sistema de saúde brasileiro, já não alcança os mesmos níveis de adesão. E isso tem cobrado preço silencioso.

A chamada “dívida imunológica”, provocada pelos anos de baixa exposição durante a pandemia, ajuda a explicar por que mais pessoas estão suscetíveis. No entanto, esse fator, por si só, não justifica o avanço da doença. O verdadeiro ponto de inflexão está na queda da cobertura vacinal, especialmente entre os grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com comorbidades.

Mas por que o brasileiro tem se vacinado menos? A resposta passa por combinação preocupante de fatores. O primeiro deles é o relaxamento da percepção de risco. Sem o impacto midiático diário que marcou os anos recentes, a gripe voltou a ser tratada como problema menor, quase banal, ignorando seu potencial letal.

A isso se soma fenômeno mais delicado que é o avanço da desinformação. Narrativas equivocadas sobre vacinas, amplificadas nas redes sociais, têm corroído a confiança em um dos instrumentos mais eficazes da saúde pública. O efeito é direto, pois menos pessoas procuram os postos de vacinação, mesmo quando a oferta é ampla e gratuita.

Outro elemento relevante é o cansaço coletivo. Após anos de campanhas intensas, parte da população parece ter desenvolvido espécie de fadiga sanitária, resistindo a novas mobilizações, mesmo quando necessárias. Soma-se a isso dificuldades práticas, como horários incompatíveis e acesso desigual aos serviços de saúde em algumas regiões.

O resultado dessa equação é o atual cenário que preocupa. A influenza A, especialmente em suas variantes mais agressivas, volta a pressionar o sistema de saúde, ocupando leitos e elevando o número de casos graves. E o mais grave, é que trata-se, em grande medida, de problema evitável.

A vacina contra a gripe segue sendo eficaz na redução de hospitalizações e mortes, mesmo diante de variantes. Ignorá-la não é apenas escolha individual — é decisão que impacta coletivamente, sobretudo os mais vulneráveis. Diante desse quadro, o desafio não é apenas ampliar a oferta de vacinas, mas reconstruir a confiança pública.

É preciso comunicar melhor, combater a desinformação com firmeza e relembrar algo que o Brasil sempre soube fazer bem, que é proteger sua população por meio da imunização. Porque, no fim, o retorno da gripe não deveria ser a notícia mais preocupante. O verdadeiro alerta está no abandono gradual de uma das ferramentas mais eficazes que temos para enfrentá-la.

Luiz Henrique Campos: Formado em jornalismo com especialização em Teoria da Comunicação e da Imagem, ambas pela UFC, trabalhei por mais de 25 anos em redação de jornais, tendo passando por O POVO e Diário do Nordeste, nas editorias de Cidade, Cotidiano, Reportagens Especiais, Politica e Opinião.

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