Com o título “A Infraestrutura da IA será a ferrovia do século XXI?”, eis artigo de Alex Araújo, economista. “O motor a vapor foi importante, mas seu impacto econômico duradouro veio da reorganização da produção e do comércio. A eletricidade foi revolucionária, mas a transformação ocorreu quando empresas redesenharam fábricas, processos e cadeias produtivas para explorar suas possibilidades. A Inteligência Artificial provavelmente seguirá a mesma lógica, e, por essa razão, a discussão é especialmente relevante para países como o Brasil”, expõe o articulista.
Confira:
Nos últimos anos, consolidou-se uma visão aparentemente óbvia sobre a Inteligência Artificial: os grandes vencedores da nova economia digital serão aqueles que controlarem sua infraestrutura. A lógica parece sólida. Sistemas de IA exigem enormes volumes de energia, semicondutores avançados, redes de comunicação de alta velocidade e data centers cada vez maiores.
Em resposta, empresas anunciam investimentos bilionários, governos criam programas de incentivo e países disputam acesso a chips e eletricidade como se estivessem diante de um novo recurso estratégico.
Mas existe uma pergunta que merece atenção: e se a infraestrutura não for o lugar onde o maior valor econômico será capturado?
A história sugere cautela. No século XIX, poucos ativos pareciam mais promissores que as ferrovias. Elas conectavam regiões antes isoladas, reduziam custos de transporte, ampliavam mercados e aceleravam o crescimento econômico. Para
investidores e governos da época, parecia evidente que quem controlasse os trilhos controlaria a riqueza do futuro.
Os trilhos eram realmente indispensáveis. O problema estava em uma suposição equivocada: acreditar que a importância da infraestrutura garantiria a apropriação da maior parte do valor gerado por ela.
Quando as redes ferroviárias amadureceram, o resultado foi diferente. Grande parte da riqueza criada pelos trilhos acabou sendo capturada por fabricantes, distribuidores, varejistas e novos empreendedores que aprenderam a utilizar aquela infraestrutura para reorganizar mercados inteiros.
As ferrovias transformaram a economia, mas operar ferrovias revelou-se, muitas vezes, um negócio intensivo em capital e sujeito a margens limitadas. Talvez estejamos observando um fenômeno semelhante na era da Inteligência Artificial.
Hoje, empresas competem para construir data centers gigantescos, garantir acesso a energia elétrica e adquirir capacidade computacional. A premissa implícita é a mesma da era ferroviária: quem controlar os ativos físicos controlará o futuro.
Entretanto, a própria história recente da tecnologia conta outra história.
No início dos anos 2000, empresas de telecomunicações investiram trilhões de dólares na expansão de redes de fibra óptica. Essas redes foram essenciais para a transformação digital, mas a maior parte do valor econômico não ficou com seus proprietários.
O valor migrou para as plataformas que passaram a operar sobre elas: mecanismos de busca, redes sociais, softwares e marketplaces.
O mesmo ocorreu com os smartphones. A fabricação do hardware tornou-se uma atividade cada vez mais competitiva e pressionada por custos. Enquanto isso, o valor concentrou-se nos aplicativos, serviços digitais e ecossistemas que transformaram o aparelho em uma plataforma para inúmeras atividades econômicas.
Existe uma razão recorrente para esse padrão. Infraestrutura costuma ser escassa no início de uma revolução tecnológica. Depois, tende a se expandir, tornar-se mais eficiente e perder parte de sua exclusividade econômica.
Hoje, a capacidade computacional é vista como um recurso raro. Isso é verdadeiro no curto prazo. Há limitações na produção de semicondutores avançados e forte demanda por processamento especializado.
Mas a história dos mercados mostra que escassez atrai investimento. Com o tempo, a oferta cresce, os custos caem e aquilo que parecia extraordinariamente raro torna-se amplamente disponível.
Já vimos esse processo ocorrer com armazenamento de dados, largura de banda e capacidade de processamento. O que antes era caro e restrito tornou-se abundante. Não há motivo para supor que a computação necessária para IA seguirá um caminho completamente diferente.
Se isso acontecer, a vantagem competitiva mudará de lugar. O diferencial deixará de estar principalmente na posse dos servidores e passará a estar na capacidade de resolver problemas concretos. O valor estará menos na infraestrutura e mais nas aplicações que aumentarem produtividade, reduzirem custos, melhorarem diagnósticos, personalizarem serviços ou criarem novos mercados. Essa é a lição que atravessa sucessivas revoluções tecnológicas.
O motor a vapor foi importante, mas seu impacto econômico duradouro veio da reorganização da produção e do comércio. A eletricidade foi revolucionária, mas a transformação ocorreu quando empresas redesenharam fábricas, processos e cadeias produtivas para explorar suas possibilidades.
A Inteligência Artificial provavelmente seguirá a mesma lógica, e, por essa razão, a discussão é especialmente relevante para países como o Brasil.
O país possui vantagens reais para atrair investimentos em data centers. Conta com uma matriz energética relativamente limpa, amplo potencial de expansão em fontes renováveis, estabilidade institucional comparativa e infraestrutura de telecomunicações capaz de sustentar novos projetos.
Esses investimentos são desejáveis. Geram emprego, atraem capital e fortalecem a infraestrutura nacional. Mas existe um risco estratégico: confundir a instalação de data centers com liderança tecnológica.
Hospedar infraestrutura não é o mesmo que capturar valor. Um país pode abrigar milhares de servidores e ainda assim permanecer dependente de tecnologias, modelos de negócio e propriedade intelectual desenvolvidos em outros lugares.
A verdadeira captura de valor dependerá de fatores diferentes: formação de talentos, produção científica, empreendedorismo tecnológico, desenvolvimento de software, propriedade intelectual e capacidade de criar empresas que utilizem a IA para resolver problemas relevantes em escala global.
A corrida por energia, chips e data centers é real. Ela continuará influenciando estratégias empresariais, políticas públicas e disputas geopolíticas durante muitos anos. Mas infraestrutura define apenas o que é possível fazer. Ela não determina quem ficará com a maior parte dos ganhos econômicos.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quem construirá as ferrovias digitais do século XXI. A pergunta decisiva é quem criará os negócios que circularão por elas.
Se os data centers forem realmente as novas ferrovias, a maior riqueza não estará nos trilhos. Estará nos mercados, empresas e serviços que aprenderem a utilizá-los para reorganizar a atividade econômica.
*Alex Araújo
Economista e ex-secretário de Desenvolvimento Local do Estado.