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“A juventude cansada do futuro prometido” – Por Cleyton Monte

Cleyton Monte é cientista político e diretor-presidente do Centec. Foto: Divulgação

Com o título “A juventude cansada do futuro prometido”, eis artigo de Cleyton Monte, cientista político e presidente do Instituto Centec. “Interpretar essa juventude apenas pela lente da “falta de resiliência” talvez seja um erro analítico. O que emerge é uma geração que cresceu ouvindo promessas de prosperidade, mas ingressou na vida adulta em meio à ansiedade econômica, ao endividamento e à percepção de que o esforço individual já não garante mobilidade social”, expõe o articulista.

Confira:

Durante décadas, o Brasil organizou uma poderosa promessa geracional: estudar, conquistar um diploma, trabalhar duro e, gradualmente, alcançar melhores condições de vida. Essa narrativa estruturou expectativas, orientou famílias e alimentou o imaginário de mobilidade social de milhões de brasileiros. O problema é que, para uma parcela significativa da juventude atual, esse pacto parece ter sido rompido.

A geração mais jovem não enfrenta apenas um mercado de trabalho competitivo. Enfrenta um cenário de incertezas permanentes, marcado pela precarização das relações laborais, pela compressão salarial, pelo alto custo de vida e pela dificuldade crescente de projetar o futuro. O resultado é uma sensação difusa, porém profunda, de frustração coletiva: a juventude parece cansada do futuro que lhe foi prometido — porque ele simplesmente não chegou.

Há um equívoco recorrente no debate público ao se afirmar que os jovens “não querem trabalhar”. A questão é mais complexa. O que cresce não é uma rejeição ao trabalho em si, mas uma crítica às condições oferecidas. Jornadas exaustivas, salários insuficientes, poucas possibilidades reais de ascensão e ambientes frequentemente adoecedores tornaram-se parte da experiência cotidiana de muitos trabalhadores em início de carreira.

A geração Z, frequentemente criticada por suposta impaciência ou falta de compromisso, talvez seja apenas a primeira geração a verbalizar com maior intensidade algo que vinha sendo silenciosamente acumulado: o esgotamento de um modelo que exige cada vez mais e entrega cada vez menos. Não se trata de ausência de ambição, mas de uma mudança no significado atribuído ao trabalho e à qualidade de vida.

A expansão da economia de plataformas aprofundou esse processo. Aplicativos e novas formas de ocupação trouxeram flexibilidade, mas também consolidaram um ambiente de instabilidade permanente. Muitos jovens vivem entre contratos temporários, renda variável e ausência de proteção social robusta. A promessa do empreendedorismo individual, vendida como caminho universal para prosperidade, frequentemente esbarra em um cotidiano de sobrevivência financeira.

Não por acaso, cresce o adiamento de projetos de vida historicamente associados à entrada na vida adulta: sair da casa dos pais, comprar imóvel, casar ou ter filhos. Não é mera mudança cultural. Em grande medida, trata-se de uma adaptação às restrições econômicas concretas. Como construir estabilidade quando o horizonte é marcado pela insegurança?

Esse fenômeno produz efeitos que vão além da economia. Existe também uma consequência política importante. A frustração prolongada tende a ampliar o desencanto com instituições e lideranças tradicionais. Quando o futuro parece bloqueado, discursos simplificadores ganham força — sejam eles ultraliberais, autoritários ou messiânicos. A política da indignação prospera justamente onde a esperança institucional se fragiliza.

Interpretar essa juventude apenas pela lente da “falta de resiliência” talvez seja um erro analítico. O que emerge é uma geração que cresceu ouvindo promessas de prosperidade, mas ingressou na vida adulta em meio à ansiedade econômica, ao endividamento e à percepção de que o esforço individual já não garante mobilidade social.

Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja por que os jovens mudaram. A pergunta correta talvez seja outra: o que aconteceu com o modelo de sociedade que lhes prometeu um futuro melhor — e hoje parece incapaz de entregá-lo?

*Cleyton Monte

Cientista político e presidente do Instituto Centec.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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