“Os envolvidos deveriam ser obrigados a, por exemplo, passar algumas horas do dia tratando de animais. Teriam a chance, nesse tempo, de aprender o que é amar o próximo, a começar pelos animais”, aponta o jornalista Paulo Rogério
Confira:
O nome dela era Quica. Pode parecer estranho para uma cadela, mas surgiu de uma abreviação da expressão usual que todos exclamavam quando a viam: “Nossa, mas que cachorra feia é essa! ” E não era para menos. A bichinha era tão feia, tão feia, que espantava os desavisados. Em um primeiro momento, não dava para saber se aquela coisinha preta que vinha logo ali, abanando um pedaço de pelo na traseira, era uma ratazana escura, um gambá, um preá, um cachorro ou tudo misturado.
Do bullying sobre a aparência da nossa cadelinha, surgiu o nome de batismo: Que cachorra feia; Quicachorra feia; Quicachorra; Quica. Pronto, dessa forma ela passou a ser conhecida no sítio que possuíamos no Pacheco, próximo da estrada velha do Icaraí. Quando adquiri a propriedade – porteira fechada – ela já morava ali. Ela e mais 11 cachorros dos mais variados tipos e tamanhos. De vira-latas a Beagle, caramelos e um salsicha idoso. Adotamos todos, afinal havia muito espaço naquele hectare de muito verde, coqueiro, cajueiros, pé de cajá e uma enorme mangueira na frente da casa.
Quica era algo entre um poodle de pelos pretos, um maltês pequeno e um pequinês. Tinha o maxilar inferior avantajado, o que lhe passava feições de um buldogue. Enfim, é difícil dar um retrato falado. O que importa mesmo é que era muito carinhosa. Adorava ficar próximo aos pés da gente, sedenta por um afago no pescoço. Era a segurança do sítio. Qualquer barulho diferente dava o alarme, acordando o restante da milícia canina.
Porém, era uma legitime parideira, a alegria da cachorrada da casa. Não falhava no calendário. Podia anotar: a cada três, quatro meses ela aumentava a população local com seus cachorrinhos barrigudinhos e….feinhos. Essa vida louca já estava afetando fisicamente nossa pretinha. A solução foi levar Quica para a casa de meu sogro, na Maraponga, longe da testosterona dos cães do sítio. Quem sabe assim ela conseguiria engordar um pouquinho e – por milagre – melhorar a aparência cansada.
É aqui começa a saga da nossa Quica. Uma história que mostra toda sensibilidade que esses animais têm e como a crueldade feita com a cadela Orelha, em Santa Catarina, merece ser penalizada. Judiar de um pequeno ser indefeso escancarou a irracionalidade que certos humanos possuem, a despeito da classe social, idade ou nível cultural. Mais que prisão ou multa, os envolvidos deveriam ser obrigados a, por exemplo, passar algumas horas do dia tratando de animais. Teriam a chance, nesse tempo, de aprender o que é amar o próximo, a começar pelos animais.
Um sentimento que a nossa personagem deixou como lição. Explico. Quica ficou com meu sogro por um bom tempo, até que ele teve que mudar de cidade e não pode levá-la. Quica foi, então, para a casa de uma prima, no bairro Quintino Cunha, distante uns 7 km. Porém, ela não se adaptou bem ao novo lar. Fugiu duas vezes, acabou sendo atropelada em uma delas e ficou aleijadinha de uma patinha dianteira, a da direita. Para piorar, apareceu cega de um olho. Ninguém soube o motivo.
Na terceira fuga surpreendeu. Depois de quase uma semana do novo sumiço, recebo uma ligação. Do outro lado da linha, uma mulher avisou que a cachorrinha preta que morava na casa vizinha, na Maraponga, havia voltado e estava dormindo há dois dias na frente da antiga residência, ainda vazia, em um montinho de areia de construção. Era a antiga vizinha de meu sogro. Como Quica conseguiu andar tamanha distância, pulando, com aquela patinha quebrada, ninguém sabe. Fica na imaginação o enredo dessa aventura.
O certo é que só muito amor faz um animal, naquelas condições, ter tamanha determinação. Um amor puro e verdadeiro. Coisa que poucos seres racionais conseguem ter durante toda a vida. Essa é a lição que a cadela Quica deixou.
Hoje no céu dos cachorros, o nome Quica deve ter outros adjetivos: Quicachorra corajosa!, Quicachorra linda!
Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com