Com o título “A luz que vem pelo ar”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico
Confira:
“Nem toda luz vem da empresa de energia elétrica.” (Sitônio da Parangaba)
Sou do início da segunda metade do século XX e vivi transformações que, àquela época, pareciam coisa de filme de ficção científica, bem distantes da realidade cotidiana. Cresci cercado por interruptores de baquelite, rádios a válvula, telefones de disco e o ritual de pagar a conta de luz em longas filas de banco. Nunca imaginei que um dia chegaria a experimentar uma era em que se considera a possibilidade de transmitir energia pelo ar, da mesma forma que enviamos sinais de Wi-Fi.
Essa ideia, que até há pouco soaria estranha, hoje é estudada com seriedade por engenheiros de todo o mundo. Fios e cabos, parceiros inseparáveis de postes e tomadas, podem estar com os dias contados. A promessa é simples e, ao mesmo tempo, espantosa: levar eletricidade a dispositivos e casas sem a necessidade de uma malha de fiação. Um vento oculto no que sempre exigiu estruturas bem visíveis.
Converso sobre isso com meus netos, atentos como quem já nasceu conectando pontos invisíveis no ar. Eles não se admiram tanto quanto eu. Para eles, é natural a luz vir flutuando, como vêm a internet, a música, os vídeos e as mensagens. Antonio, com a lógica afiada de quem desmonta brinquedos para entender o mundo, calado, pergunta-se como era possível viver quando tudo se prendia por fios. Gloria, curiosa e sensível, imagina as casas acendendo sem interruptores, apenas com o desejo de um gesto ou, talvez, de um pensamento.
E como se não bastasse a eletricidade a voar, surge também a ideia do “crédito de energia”: um modelo de cobrança baseado no consumo em tempo real, em que cada eletrodoméstico, lâmpada e tomada (virtual?) será vinculado com um sistema financeiro automatizado. Nada de contas mensais a vencer no fim do mês. O que se gasta, paga-se de forma imediata e digital. De repente, a própria energia pode acabar virando moeda de troca, um tipo de moeda nas negociações comerciais.
Essas inovações, espantosas e fascinantes, mostram o quanto a inteligência humana é capaz de vencer limites. Ao contrário da eletricidade, prestes a se livrar dos fios, eu sigo enredado nas memórias de uma época em que o progresso ainda estava longe de chegar por meio de atualizações automáticas pelo celular.
Mas sigo curioso. Sigo atento. E sigo conversando com meus netos, que me explicam o mundo novo com uma paciência encantadora. Porque, mesmo vindo de um tempo analógico, continuo aqui, pelejando entender esta era digital em que até a energia resolveu voar.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.