“A memória de um jornalismo que faz falta” – Por Luiz Henrique Campos

Jornalista deve ser preservado em nome da cidadania.

Com o título “A memória de um jornalismo que faz falta”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada por Luiz Henrique Campos, jornalista e psicólogo. “Essa memória ganha importância ainda maior no Brasil de hoje, quando a polarização política que marca nosso tempo tem deixado sequelas profundas em diferentes instituições, e a imprensa, não passa incólume por esse processo. A confiança no jornalismo foi abalada, os critérios de avaliação dos fatos passaram a ser frequentemente subordinados a disputas ideológicas e, em determinadas circunstâncias, a própria”, expõe o colunista. 

Confira:

Li, nestes últimos dias, o livro A História Contada pelos Vencedores – 50 Anos do Prêmio Esso, obra que me levou a revisitar momentos marcantes do jornalismo brasileiro e a refletir sobre o papel da imprensa em nossa história. Mais do que registro comemorativo, o livro constitui documento fundamental para compreender a importância de uma atividade que, em seus melhores momentos, soube exercer com coragem, rigor e independência sua função social. No volume de 192 paginas estão relacionados 630 trabalhos premiados nesses 50 anos. Dentre estes, modestamente, estou incluído em dois, quando ainda trabalhava em O Povo.

Durante décadas, o Prêmio Esso de Jornalismo foi considerado o Oscar do jornalismo brasileiro. Mais do que distinção profissional, representava o reconhecimento público da excelência, da coragem investigativa e do compromisso com a verdade. Ao reunir trabalhos, trajetórias e momentos marcantes da imprensa nacional, a publicação revela como jornalistas e veículos de grande relevância contribuíram para iluminar os problemas do país e ampliar o debate público.

Essa memória ganha importância ainda maior no Brasil de hoje, quando a polarização política que marca nosso tempo tem deixado sequelas profundas em diferentes instituições, e a imprensa, não passa incólume por esse processo. A confiança no jornalismo foi abalada, os critérios de avaliação dos fatos passaram a ser frequentemente subordinados a disputas ideológicas e, em determinadas circunstâncias, a própria capacidade de questionamento da parece ter perdido parte de sua força.

O que se tem revelado sobre relações pouco transparentes, possíveis conluios e acordos envolvendo personagens de expressão nacional provoca inquietação e atinge a todos que se dedicam e se dedicaram ao jornalismo como função social. Situações que exigem apuração rigorosa, independência editorial e transparência, cedem espaço para acordos com veículos ou seus representantes que causam vergonha e nos causam a sensação de vômito. Em outros tempos, fatos dessa natureza talvez recebessem tratamento mais contundente, ocupando espaços de destaque em editorias políticas, investigativas ou policiais.

Hoje, a percepção de alinhamentos, conveniências e silêncios seletivos alimenta dúvidas sobre a disposição de determinados setores da imprensa para cumprir sua missão fiscalizadora. É preciso, naturalmente, evitar generalizações. Há jornalistas que continuam exercendo seu ofício com coragem, independência e responsabilidade, mesmo diante de pressões econômicas, políticas e institucionais. Mas reconhecer esse mérito não nos impede de observar, com preocupação, os sinais de enfraquecimento de valores que deveriam ser inegociáveis para a profissão.

Para quem teve o privilégio de receber o Prêmio Esso e de conviver com jornalistas comprometidos com a função social da imprensa, a comparação entre diferentes momentos da história provoca reflexão inevitável. Não se trata de idealizar o passado, também marcado por erros, limitações e contradições. Trata-se de reconhecer que houve cultura profissional na qual a qualidade da apuração, a coragem de investigar e a disposição de contrariar interesses poderosos constituíam referências essenciais.

O livro dos 50 anos do Esso nos ajuda a compreender essa herança e, sobretudo, a perceber o que está em jogo quando esses princípios deixam de ocupar o centro da atividade jornalística. Mais do que celebrar conquistas, a obra convida a refletir sobre responsabilidades e compromissos. O nosso tempo está difícil. E talvez seja justamente por isso que precisamos olhar para essa história com tanta atenção. Resgatar a memória do Prêmio Esso não significa apenas reverenciar os grandes nomes e as grandes reportagens do passado, mas reafirmar a importância de uma imprensa livre, crítica e independente. Afinal, quando o jornalismo deixa de incomodar os poderosos, a sociedade perde um de seus mais importantes instrumentos de defesa. E, quando a memória de seus melhores momentos nos ajuda a reconhecer os riscos do presente, ela deixa de ser apenas lembrança, pois torna-se chamado à responsabilidade.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista, psicólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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