O podcast Cafezim com Literatura nasceu do desejo de conversar sobre livros como quem puxa uma cadeira, serve um café passado na hora e deixa o tempo correr sem pressa. É um espaço de escuta, de troca e, sobretudo, de celebração da palavra.
Do dia 02 de dezembro pra cá, já fizemos nove encontros (tá passando muito rápido). Mais do que entrevistas, o projeto se transformou em uma generosa partilha. Ao longo de nove episódios disponíveis no canal do Youtube “Cafezim com Literatura” e em todas as plataformas de áudio, a palavra ganhou corpo, emoção, debate e pertencimento.
Resolvi fazer esse menu degustação do podcast na minha coluna desta semana para te dar o gostinho de cada episódio e fazer você ter a vontade de ir além dos cortes que a gente publica no Instagram. Vale muito a pena!
EPISÓDIO 1 – Mailson Furtado
No primeiro episódio, recebi o escritor cearense Mailson Furtado, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Poesia e também Livro do Ano — um feito que colocou seu nome entre os grandes da literatura brasileira contemporânea.
Em quase uma hora de conversa leve, bem-humorada e profunda, Mailson falou sobre a “teima” que é viver de literatura no Brasil. Mais do que isso: sobre a insistência — e a resistência — de permanecer no Ceará, produzindo arte longe dos grandes centros editoriais do país. Falamos sobre processo criativo, sobre o silêncio necessário à poesia, sobre as dificuldades do mercado editorial e sobre a coragem que é escolher ficar.
O episódio é um mergulho sensível nos bastidores da escrita e na realidade de quem decidiu fazer da palavra o seu ofício. É também uma aula sobre pertencimento, identidade e compromisso com a própria terra.
Se você gosta de literatura, de boas histórias e de conversas que aquecem como um cafezim coado na hora, esse episódio é um convite irrecusável.
EPISÓDIO 2
No segundo episódio do Cafezim com Literatura, a conversa ganhou múltiplas vozes e perspectivas. Recebi Rafael Caneca, criador do perfil literário no Instagram Pacote de Textos, e Mirna Frota, idealizadora do clube de leitura Leituras Paralelas.
Foi um encontro sobre o prazer da leitura — e sobre como ela pode ser muito mais do que números em uma meta anual.
Em tempos de listas, desafios e metas de “tantos livros por mês”, os dois trouxeram uma reflexão importante: mais relevante do que a quantidade de obras lidas é a conexão que cada livro estabelece com quem lê. Ler não é competição. É encontro. É transformação.
Mirna compartilhou um depoimento profundamente tocante ao contar que a literatura foi essencial em seu processo de superação da depressão. Os livros, segundo ela, não foram apenas histórias — foram companhia, abrigo e caminho de reconstrução.
Já Rafael Caneca, membro do coletivo Delirantes, falou sobre seu primeiro romance, “Não volte sem ele”, que mergulha em um capítulo pouco discutido da história do Ceará: os campos de concentração criados durante os períodos de seca. Baseado em fatos reais que o Brasil preferiu esquecer, é uma narrativa que provoca, resgata memórias e lança luz sobre episódios que muitos ainda desconhecem.
Foi uma conversa que transitou entre dor e esperança, memória e afeto, mostrando como a literatura pode ser, ao mesmo tempo, denúncia e cura.
Se o primeiro programa falou sobre a teimosia de viver de literatura, o segundo mostrou porque ela continua sendo necessária.
EPISÓDIO 3
Depois de mergulhar em temas profundos e emocionais, o Cafezim com Literatura abriu espaço para uma conversa divertida e potente sobre criação coletiva. O destaque foi o livro Mulheres, Livros e Vinhos – uma obra que nasceu a muitas mãos.
Leve, vibrante, cheio de riso e cumplicidade. Mais do que um projeto literário, o livro surgiu como um suspiro. Um desabafo. Uma urgência de dizer. A escrita seguiu o ritmo da pulsação de dezenas de corações femininos que decidiram transformar suas verdades em páginas.
Durante o episódio, falamos sobre esse processo coletivo de criação — sobre como diferentes vozes podem coexistir, se complementar e formar uma narrativa plural. Cada autora trouxe sua experiência, suas dores, seus aprendizados e sua força.
No fundo, Mulheres, Livros e Vinhos é um livro sobre coragem. Coragem de se reconhecer. Coragem de se expor. Coragem de ser quem se é — sem pedir licença.
Foi um episódio leve, sim, mas também profundamente transformador. Porque quando mulheres escrevem suas próprias histórias, elas não apenas ocupam espaço — elas constroem novos.
Conversei com as escritoras Melissa Ourives, Raquel Barreto e com a escritora e revisora da obra, Patrícia Cacau.
EPISÓDIO 4
O terceiro episódio do Cafezim com Literatura foi, talvez, o mais delicado e emocional até aqui. Um encontro atravessado pela dor — e pela fé, pela memória e pelo amor inesquecível.
A conversa girou em torno da obra Elos do Amor, que reúne relatos de mães que perderam os amores de suas vidas: seus filhos.
Mais do que falar sobre a ausência, essas mulheres falaram sobre presença. Contaram quem foram seus meninos, suas histórias, seus jeitos, seus sonhos interrompidos. Transformaram saudade em palavra, lágrima em testemunho.
Em meio a uma dor impossível de dimensionar, relataram também sinais — pequenos acontecimentos, percepções, experiências que trouxeram acalento e respostas. Como se os filhos, de alguma forma, estivessem apenas do outro lado do caminho. Como se o amor continuasse encontrando maneiras de se manifestar.
Foi um episódio de silêncio respeitoso, de escuta profunda. Um daqueles momentos em que o café esfria na xícara porque o coração está atento demais para qualquer outra coisa.
O Cafezim com Literatura mostrou, ali, que a literatura também é ponte: entre mundos, entre tempos, entre o que foi e o que permanece.
Foi o episódio mais sensível e emocionante da temporada — e, certamente, um dos mais necessários.
EPISÓDIO 5
Imagine escrever uma obra quase despretensiosamente — movido mais pela necessidade de dizer do que pela ambição de conquistar troféus — e, de repente, descobrir que ela foi escolhida como semifinalista ou finalista de prêmios respeitados nacional e internacionalmente, como o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos.
Foi sobre esse susto bom, essa mistura de incredulidade, alegria e responsabilidade que conversei com Ana Márcia Diógenes, Raymundo Netto e Emanuela Ribeiro.
Falamos sobre o que representa estar entre os indicados. Sobre como uma premiação pode ampliar o alcance de uma obra, abrir portas, gerar novas leituras — mas também sobre a importância de não deixar que o reconhecimento externo seja maior do que o compromisso interno com a escrita.
O episódio revelou bastidores, expectativas, frustrações e alegrias. Mostrou que, por trás de cada livro premiado ou indicado, existe trabalho silencioso, disciplina e, sobretudo, paixão (e até frustração, algumas vezes).
Se no primeiro episódio falamos da teima de viver de literatura, aqui vimos que essa mesma teima pode, sim, atravessar fronteiras e ganhar o mundo.
EPISÓDIO 6
O sexto episódio do Cafezim com Literatura foi sobre um dos momentos mais sonhados — e também mais temidos — por quem escreve: a publicação impressa.
Reuni três escritoras que transformaram o manuscrito em livro físico e viveram, cada uma à sua maneira, essa travessia. Conversei com Kell Garcia, Vera Marques e Juliana Marques.
O mais interessante? Cada uma trilhou um caminho diferente — e todos deram certo.
Kelly apostou nas plataformas de financiamento coletivo, mobilizou leitores e criou comunidade antes mesmo de o livro nascer fisicamente. Juliana Marques chamou a atenção de uma editora e foi acolhida por um selo que acreditou no seu original. Já Vera
Marques percorreu o caminho dos editais públicos e foi selecionada em diferentes oportunidades, transformando política cultural em possibilidade concreta.
O episódio desmonta um mito: não existe fórmula única para publicar. Não há um único “caminho certo”. Existe o caminho que conversa com sua realidade, com seus recursos, com sua rede e com sua persistência.
Mais do que falar de mercado, falamos de coragem. Porque publicar é se expor. É sair do arquivo do computador e ocupar a estante, a livraria e, principalmente, a mão do leitor (o que mais sonhamos e tememos, ao mesmo tempo).
E no fim da conversa, ficou a pergunta que ecoa para quem nos assiste:
Se não existe caminho certo, qual é o caminho que pode dar certo para você?
EPISÓDIO 7
O sétimo episódio do Cafezim com Literatura foi daqueles que rendem debate depois que a câmera desliga.
Falamos sobre literatura fantástica, fantasia, realismo fantástico… afinal, são muitos os nomes para tentar definir um gênero que, muitas vezes, parece interessar mais às editoras — que precisam encaixar um livro em determinada prateleira — do que propriamente aos leitores.
Recebi Lara Vainstok, que falou sobre sua trilogia e sobre a liberdade criativa que o fantástico permite: criar mundos, tensionar realidades e discutir questões humanas profundas por meio do imaginário.
Também esteve comigo Wilson Júnior, autor de literatura de fantasia e professor de escrita literária, que compartilhou sua trajetória no gênero e provocou uma reflexão que certamente dividiu opiniões: e se Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, for, sim, uma obra de literatura fantástica?
Afinal, temos um narrador defunto. Temos ruptura da lógica tradicional do real. Temos diálogo direto com o leitor desde o além. Não seria essa uma das maiores ousadias fantásticas da literatura brasileira?
O episódio questiona rótulos, desafia classificações e convida o público a olhar para os livros com menos gavetas e mais liberdade.
Foi polêmico. Foi instigante. Foi daqueles que fazem a gente sair pensando, discutindo (fomentando polêmicas hehehe) — e talvez relendo.
EPISÓDIO 8
O oitavo episódio do Cafezim com Literatura foi uma verdadeira celebração da imprensa que acredita nos livros.
Reuni amigos jornalistas que pautam literatura nos principais veículos cearenses e que ajudam a manter o livro vivo no noticiário cultural. Foi uma conversa leve, generosa e cheia de bastidores.
Estiveram comigo Diego Barbosa, do Diário do Nordeste, Lilian Martins, do programa Autores e Ideias, da Alece FM, e Soraya Santos, da TV Ceará.
Eles contaram como nasce uma pauta literária — daquele primeiro e-mail tímido até a reportagem publicada ou a entrevista no ar. Falaram sobre como começou a relação de cada um com o jornalismo cultural e sobre o desafio (e o prazer) de abrir espaço para autores em meio à correria das redações.
E, claro, deram dicas valiosíssimas de obras que muita gente ainda não conhece. Foi um daqueles episódios em que o tempo simplesmente não foi sentido. Quando vimos, o café já tinha acabado — mas a conversa continuava.
O episódio mostra que, por trás de cada livro que ganha visibilidade, existe também o olhar atento de quem acredita que literatura é notícia, é serviço, é formação de público.
EPISÓDIO 9
O nono episódio do Cafezim com Literatura é um convite ao deleite.
Existe algo mais gostoso do que uma boa crônica? Aquele texto que parece pequeno, mas guarda o mundo inteiro dentro de poucas linhas.
A conversa girou em torno da obra Fortaleza Amada, publicação da Editora UFC, que reúne centenas de textos escritos por cearenses — de nascimento ou de coração — em homenagem à capital, que celebra seus trezentos anos neste mês de abril.
Qual é a dor e a delícia de viver Fortaleza?
Essa pergunta atravessou todo o episódio.
Recebi o professor e cronista Ronaldo Salgado e a escritora Íris Cavalcante, que representaram os mais de 150 participantes dessa publicação histórica.
Falamos de mar e de asfalto quente. De memória afetiva e de desigualdades. De infância, de política, de riso fácil e de resistência cotidiana. Porque viver Fortaleza é experimentar contrastes — é amar apesar, amar com, amar por causa.
É um episódio que celebra a cidade, mas também convida à reflexão sobre pertencimento. Sobre como cada esquina guarda uma história. Sobre como a crônica eterniza aquilo que, à primeira vista, parecia banal.
Encerrar a temporada falando da cidade é, de certa forma, voltar para casa.
Mais do que entrevistas, o projeto se transformou em encontros. A palavra ganhou corpo, emoção, debate e pertencimento. O “Cafezim com Literatura” fala de livros, mas ,
principalmente, de gente. De quem escreve. De quem lê. De quem divulga e de e quem resiste e insiste em acreditar no poder da leitura e da escrita.
Se você acredita que literatura é encontro, memória, debate e afeto — esse café é para você.
Os episódios estão todos disponíveis no YouTube “Cafezim com Literatura”, com “m” no final mesmo, do jeito que a gente fala, afinal, em nossa escrita que bebe tanto da nossa oralidade, um ponto de vista é sempre a vista de um ponto.
Puxa uma cadeira (ou arma a rede), aperta o play, chama alguém interessante e vem tomar esse Cafezim com a gente.
O podcast Cafezim com Literatura é semanal.
Tem algum tema ou sugestão de entrevistado?
Coloca aqui nos comentários.
Respostas de 2
Curti demaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaais essa reflexão leve e verdadeira sobre como as palavras mexem com a gente!
Dá até vontade de pegar um “cafezim” e continuar pensando no poder que cada livro/episódio tem de nos fazer sentir, questionar e até mudar de ideia.
Obrigado por esse texto que parece conversa boa entre amigos!
Obrigada por essa primeira temporada! Que venham as próximas!!!!!
Podcast inspirador! Vida longa e literária 💓