“A palavra que cutuca: Marcelino Freire chega ao Cuca Pici” – Por Mirelle Costa

Tem escritor que ensina técnica e tem aquele que bagunça você por dentro, todim. Marcelino Freire é, definitivamente, do segundo tipo.

A chegada dele a Fortaleza, no próximo dia 8 de abril, próxima quarta-feira, para uma aula-show gratuita no Cuca Pici, não é apenas mais um evento literário na agenda da cidade. É dessas oportunidades raras de ver a literatura em estado bruto — viva, incômoda, atravessando o corpo.

Marcelino Freire dará aula-show gratuita no Cuca Pici, dia 8

Marcelino não escreve para agradar. Ele escreve para entender (e faz a gente se entender também). Ou, como ele mesmo diz, “escrevo para não julgar os outros. Escrevo para compactuar”. E talvez esteja aí o segredo da força dos seus textos: eles não oferecem respostas fáceis, mas obrigam o leitor a encarar perguntas difíceis.

E é justamente essa ideia de literatura como resistência que atravessa a sua obra. Contos negreiros, por exemplo, não é um livro confortável. E ainda bem. Marcelino olha para o mundo sem filtro e devolve tudo em forma de linguagem — uma linguagem que pulsa, que repete, que insiste, como se tivesse ouvido próprio. Ele mesmo explica: não trabalha com rima, trabalha com “ímã”. Uma palavra puxando a outra, como quem puxa também o leitor para dentro do texto.

Mas talvez o que mais me interesse em Marcelino seja essa relação entre escrita e corpo. Vinda do teatro, sua literatura não é apenas para ser lida — é para ser dita, sentida, encenada. “A escrita é solitária, a entrega tem que ser solidária”, afirma. E isso muda tudo. Porque ler Marcelino é, de certa forma, entrar em cena também e desnudar-se.

Não à toa, o encontro no Cuca Pici começa com a performance da poeta Patrícia Cacau. Um acerto. A obra dele pede esse atravessamento entre palavra e presença.

A curadora Ana Márcia Diógenes define Marcelino como “um artífice das palavras, das linguagens, dos movimentos de criar, de ser arte, fazer resistência”, afirma a escritora, que ministrou o módulo de escrita criativa para jovens do Cuca do Pici participantes do projeto Laboratório de Jovens Escritores da Rede Cuca.

Concordo e acrescento: um provocador.

Num país que tantas vezes desvaloriza a arte, encontros como esse são mais do que bem-vindos — são urgentes. Porque, no fim das contas, a literatura que importa não é a que conforta. É a que cutuca, incomoda, provoca, inquieta.

E Marcelino Freire sabe fazer isso como poucos, com muita generosidade.

O evento integra o Laboratório de Jovens Escritores da Rede Cuca, um projeto que merece toda a nossa admiração e apoio. Em vez de tratar a literatura como algo distante ou elitizado, aproxima jovens da escrita como prática possível, concreta — e necessária.

Participantes da oficina de escrita criativa com a escritora Ana Márcia Diógenes

Os próximos módulos serão de conto (abril), romance (maio) e poesia (junho), respectivamente ministrados por Kinaya Black, Marília Lovatel e Argentina Castro. Ao longo dos módulos acontecerão outras aulas-show, com a escritora Vanessa Passos, no dia 6 de maio, e com a cenopoeta Claudiana Alencar, em 10 de junho e performances da escritora e cordelista Julie Oliveira, e do multiartista Jefferson Kafe.

Jovens com a professora e escritora, Luciana Braga

“O projeto Laboratório de jovens escritores, organizado pela Rede Cuca, é uma oportunidade única para que os jovens da periferia de Fortaleza tenham acesso à uma série de aulas, oficinas e palestras com o objetivo de fortalecer o processo de criação literária, em que os dez selecionados da turma terão seu livro publicado e receberão exemplares para comercializar e se inserir no mercado literário. Eu como escritora, mas também doutoranda em Letras e professora da rede pública de ensino do Ceará, fui convidada para ministrar a primeira aula. De início, já fiquei muito feliz por saber que muitos jovens haviam se inscrito e a turma selecionada possuía um nível bastante alto de qualidade literária e interesse. Meu papel foi proporcionar um passeio pela literatura brasileira refletindo sobre o conceito de literatura, importância da leitura, dos grandes gêneros literários e da interpretação de textos. Ao longo do encontro que durou uma manhã de sábado, desenvolvi atividades de produção e percebi a diversidade e riqueza de talentos que temos em mãos. Acredito que a cada encontro, eles intensificarão ainda mais o amor pela literatura e teremos livros incríveis, independente de quem seja selecionado ao final”, celebra a escritora e professora, Luciana Braga,

Ideias na mesa, histórias no papel. Jovens participam do primeiro módulo do curso de escrita do laboratório de Jovens Escritores, no Cuca do Pici
Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.

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