“A Psicologia por trás da campanha e a lei do espelho invertido” – Por Luiz Henrique Campos

Olhar para o próprio espelho. Foto: Reprodução

Com o título “A Psicologia por trás da campanha e a lei do espelho invertido”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo joralinsta e psicólogo Luiz Henrique Campos. “O candidato raramente apresenta sua trajetória como história feita também de equívocos, contradições e decisões que poderiam ter sido diferentes. Ao contrário, costuma selecionar do passado aquilo que confirma sua própria narrativa e deixar na sombra aquilo que pode produzir dúvidas”, expõe o colunista.

Confira:

Começa a campanha eleitoral e, quase sempre, o discurso político ganha característica conhecida. Fala-se muito mais do adversário do que das próprias propostas. Antes mesmo de apresentar projeto de governo, alguns candidatos parecem empenhados em construir a imagem de que o outro é incapaz, despreparado, desonesto ou simplesmente indigno de ocupar o cargo que disputa.

É como se a eleição começasse menos pela apresentação de ideias e mais pela necessidade de destruir a imagem de quem está do outro lado.

Há, nesse comportamento, aspecto que pode ser observado também pela lente da psicologia. A crítica ao outro, quando ultrapassa o campo da divergência política e se transforma em desqualificação permanente, pode revelar mais sobre quem critica do que sobre quem é criticado.

A Psicologia reconhece mecanismos de defesa nos quais características, sentimentos ou conflitos que determinada pessoa tem dificuldade de reconhecer em si podem ser atribuídos ao outro. É o conhecido mecanismo da projeção. Isso não significa, evidentemente, que toda crítica seja uma projeção. Apontar erros, questionar decisões e cobrar responsabilidades faz parte da democracia e é indispensável ao debate público.

A questão aparece quando a crítica deixa de ser instrumento de reflexão e passa a funcionar como espécie de arma permanente de autopromoção.

Quanto mais o adversário precisa ser apresentado como absolutamente errado, mais o candidato pode construir para si a imagem daquele que supostamente nunca erra. E aqui surge outra questão psicológica interessante, que é a necessidade de parecer infalível.

O candidato raramente apresenta sua trajetória como história feita também de equívocos, contradições e decisões que poderiam ter sido diferentes. Ao contrário, costuma selecionar do passado aquilo que confirma sua própria narrativa e deixar na sombra aquilo que pode produzir dúvidas. Reconhecer um erro exigiria admitir limites, e admitir limites nem sempre combina com a persona de alguém que pretende convencer os outros de que possui todas as respostas.

A infalibilidade, nesse contexto, pode ser entendida como a necessidade de afirmação pessoal. Não basta dizer “tenho proposta diferente”; é preciso dizer, muitas vezes, “eu sou a solução”. E, para que essa construção funcione, alguém precisa ocupar o lugar oposto, que é o de incompetente, culpado, fracassado ou o inimigo. É nesse jogo psicológico que o adversário deixa de ser apenas concorrente eleitoral e passa a funcionar como espelho invertido. Tudo aquilo que se deseja negar em si pode ser colocado no outro, enquanto todas as qualidades desejadas são concentradas na própria imagem.

Talvez por isso a campanha eleitoral seja também interessante laboratório do comportamento humano. Não revela apenas o que os candidatos pensam sobre o poder, mas também como constroem a própria identidade diante do olhar dos outros. No fim das contas, a pergunta talvez não seja somente quais são as propostas de cada candidato, mas por que alguns precisam falar tanto sobre os defeitos alheios para convencer o eleitor de suas próprias virtudes. Porque, quando alguém se apresenta como perfeito e transforma o adversário na personificação de todos os males, talvez seja prudente observar não apenas o que está sendo dito sobre o outro, mas também o que essa necessidade de dizer revela sobre quem fala.

*Luiz Henrique Campos

Psicólogo e jornalista.

Luiz Henrique Campos: Formado em jornalismo com especialização em Teoria da Comunicação e da Imagem, ambas pela UFC, trabalhei por mais de 25 anos em redação de jornais, tendo passando por O POVO e Diário do Nordeste, nas editorias de Cidade, Cotidiano, Reportagens Especiais, Politica e Opinião.

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