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“A quermesse do poder” – Por Gera Teixeira

Gera Teixeira é empresário e jornalista.

“Mudaram os palanques, os jingles e as técnicas de campanha. O velho provincianismo, porém, apenas aprendeu a usar tecnologia”, aponta o jornalista e empresário Gera Teixeira

Confira:

Há alguma coisa de quermesse nas campanhas eleitorais brasileiras.

Mudam os tempos, aparecem marqueteiros, pesquisas diárias, inteligência artificial, redes sociais, algoritmos e especialistas em fabricar emoções. Mas, no fundo da cena, permanece aquele velho provincianismo político que parece ter atravessado décadas sem envelhecer.

Lá vem o candidato.

Desce do carro com ar compenetrado, atravessa a feira, abraça uma senhora, pega uma criança no colo e aperta, com entusiasmo fotográfico, a mão calejada de algum trabalhador.

Por alguns segundos, o sofrimento do povo transforma-se em cenário eleitoral.

A mão calejada quase sempre continua calejada.

O candidato segue viagem.

Antigamente havia comício, banda, bandeirola, carro de som, churrasco e promessa de emprego. Hoje temos vídeos produzidos, drones, influenciadores, disparos digitais e pesquisas capazes de informar até qual palavra deve ser pronunciada para emocionar determinado segmento.

O método se modernizou.

A intenção nem sempre.

Odorico Paraguaçu, personagem extraordinário criado por Dias Gomes, tornou-se pequeno diante de alguns de seus descendentes políticos. Odorico prometia inaugurar cemitério. Os atuais prometem hospitais sem médicos, estradas antes de existir projeto, milhões de empregos, segurança absoluta e prosperidade universal.

Prometem até aquilo que sabem não poder cumprir.

E prometem olhando nos olhos.

Há fatos pitorescos, naturalmente. Candidato tomando café onde jamais voltará. Político comendo pastel cercado por fotógrafos. Autoridade descobrindo, em setembro de ano eleitoral, comunidades esquecidas durante três anos e meio.

Seria apenas folclore se não houvesse algo muito mais grave por trás.

A degradação das campanhas acompanhou a degradação das instituições.

O voto comprado por cinquenta ou cem reais é a parte visível e miserável de um sistema muito maior. Antes que alguém compre o voto do pobre, muitas vezes alguém já financiou o político.

E quem financia raramente pratica filantropia.

Por trás do dinheiro podem existir contratos futuros, privilégios, concessões, influência, nomeações, obras, licenças ou silêncios cuidadosamente negociados.

A compra do voto começa muito antes da esquina onde o dinheiro troca de mãos.

Começa quando interesses escusos compram acesso ao poder.

Depois, o político financiado precisa financiar a própria eleição. E o eleitor vulnerável torna-se o elo mais barato de uma corrente de compromissos que começa muito acima dele.

Talvez seja essa uma das maiores perversidades de nossa democracia: condenamos o pobre que vende o voto e frequentemente tratamos com reverência aquele que comprou o candidato inteiro.

As campanhas continuam parecendo quermesses.

Há música, sorriso, abraço e promessa.

Mas, atrás das bandeirolas, circulam interesses que nada têm de ingênuos.

E a democracia vai perdendo um pouco de sua dignidade quando o eleitor deixa de escolher representantes e passa apenas a decidir qual grupo financiado ocupará, pelos próximos quatro anos, as melhores cadeiras da festa.

Gera Teixeira
Jornalista e empresário

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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