“A quinta revolução das telecomunicações” – Por Alex Araújo

Alex Araújo é economista.

Com o título “A quinta revolução das telecomunicações”, eis artigo de Alex Araújo, economista e ex-scretário de Desenvolvimento Local do Ceará. “Assim como a privatização redefiniu o setor no fim do século passado e o smartphone reorganizou a economia digital neste século, as constelações de satélites em órbita baixa têm potencial para abrir a próxima era das telecomunicações: uma era em que estar conectado deixa de ser uma questão de onde se está”, expõe o articulista.

Confira:

Em 1995, em Fortaleza, como em quase toda capital brasileira, conseguir uma linha telefônica podia levar anos de espera. Famílias inteiras alugavam linhas porque não tinham como comprá-las, e um número de telefone valia dinheiro no mercado paralelo, quase como um imóvel.

O motivo não era falta de tecnologia. O telefone já existia havia mais de um século. O motivo era estrutural: a rede havia sido projetada para um mundo de oferta limitada, e a demanda crescia muito mais rápido do que a capacidade das estatais de financiar novos cabos, centrais e postes. Comunicação, naquele momento, era sinônimo de infraestrutura física — e infraestrutura física custava caro e demorava para crescer.
Naquela época, ter um telefone não era usar uma tecnologia. Era possuir um patrimônio raro, disputado e caro.

Ninguém, em 1995, imaginaria que três décadas depois um aparelho no bolso se conectaria diretamente ao espaço. Mas foi exatamente essa trajetória que as telecomunicações percorreram, em uma sequência de rupturas que vale a pena entender — porque a próxima já está em curso.

A primeira ruptura: resolver a escassez

A privatização do Sistema Telebrás, em 1998, mudou a lógica econômica do setor. O problema deixou de ser administrar a falta de linhas e passou a ser expandir a rede o mais rápido possível.

Bilhões de reais foram investidos em digitalização e em novas centrais, e o telefone fixo deixou de ser artigo de luxo para se tornar serviço de massa. Pela primeira vez, o gargalo não era mais conseguir uma linha — era decidir o que fazer com ela.

A segunda ruptura: o telefone deixa de pertencer à casa

Enquanto a telefonia fixa resolvia o problema da escassez, uma mudança mais silenciosa já estava em curso. O telefone deixava de pertencer ao imóvel e passava a pertencer à pessoa.

Em vez de conectar endereços por cabos, a rede celular passou a conectar indivíduos por ondas de rádio, e torres de transmissão substituíram quilômetros de fiação. Foi uma mudança maior do que parecia na época: comunicação deixou de exigir um endereço fixo e passou a acompanhar cada cidadão, onde quer que ele estivesse.

A terceira ruptura: o telefone vira computador

No início dos anos 2000, o telefone deixou de ser telefone. O smartphone o transformou em um computador permanentemente conectado à internet, e a rede, que antes transportava sobretudo voz, passou a carregar vídeo, mapas, pagamentos e aplicativos de todo tipo.

Tecnologias como o VoIP — chamadas de voz feitas pela internet, em vez da linha telefônica tradicional — reduziram tanto a importância da telefonia clássica que ligar para alguém se tornou apenas mais um aplicativo entre centenas no aparelho. As operadoras, que antes vendiam minutos de conversa, passaram a vender capacidade de tráfego de dados.

A quarta ruptura: a infraestrutura se torna invisível

Por trás de cada smartphone, cresceu uma infraestrutura que poucos usuários percebem: data centers, computação em nuvem e redes globais de fibra óptica. Hoje, quando enviamos uma mensagem ou fazemos uma chamada de vídeo, essa informação percorre uma malha gigantesca distribuída pelo planeta.

As telecomunicações deixaram de ser apenas um setor econômico entre outros; tornaram-se a infraestrutura crítica sobre a qual quase toda atividade econômica moderna depende.

A quinta ruptura: quando a torre deixa de ser necessária

Chegamos agora, possivelmente, à maior das cinco mudanças. Recentemente, a Amazon pediu autorização à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos — a FCC, agência que regula o espectro de rádio e as telecomunicações no país — para lançar mais de cinco mil satélites capazes de se comunicar diretamente com celulares comuns.

Até hoje, toda comunicação móvel dependeu de um caminho fixo: celular, torre, fibra óptica, internet. Mesmo o smartphone mais moderno só funciona porque existem milhares de antenas espalhadas por cidades e estradas. O modelo que está surgindo rompe essa dependência: o celular passa a conversar diretamente com satélites em órbita baixa — a poucas centenas de quilômetros da Terra, bem mais próximos do
planeta do que os satélites tradicionais de TV. Sem torre por perto. Sem cobertura terrestre instalada.

Pela primeira vez, o celular não precisará de uma antena por perto. Ele conversará diretamente com um satélite em órbita.

Na prática, isso significa que um aparelho poderá continuar conectado em uma floresta, no meio do oceano, em regiões desérticas ou em comunidades pequenas demais para justificar economicamente uma rede convencional. A infraestrutura, pela primeira vez, deixa de estar amarrada ao território.

Por que isso interessa muito além da telefonia

Essa mudança não é relevante apenas para operadoras de celular. Setores inteiros dependem de conectividade constante para funcionar bem: agronegócio, logística, energia, mineração, defesa, proteção civil, veículos autônomos e sensores conectados à internet (a chamada Internet das Coisas).

Todos eles passam a operar sobre uma camada de conectividade praticamente global, o que também redesenha quem disputa esse mercado. Durante décadas, os protagonistas foram as operadoras de telefonia; hoje, empresas como Amazon, SpaceX, Apple, Globalstar e AST SpaceMobile competem para construir essa nova infraestrutura — e quem a controlar deterá uma peça importante da economia digital
das próximas décadas.

O que isso sugere sobre o próximo ciclo

Olhando essa sequência em conjunto, um padrão se torna visível: cada ruptura eliminou uma limitação que parecia definitiva na geração anterior. A privatização eliminou a escassez de linhas. A telefonia celular eliminou a dependência de um endereço fixo. O smartphone eliminou a dependência da voz como serviço principal. A nuvem eliminou a necessidade de infraestrutura local para rodar aplicações. Agora, as constelações de satélites prometem eliminar a última grande barreira: a dependência da cobertura terrestre.

Em 1995, era difícil imaginar que aquele telefone escasso e caro se tornaria, poucas décadas depois, um computador de bolso permanentemente conectado. É provável que estejamos cometendo o mesmo erro de perspectiva hoje, ao subestimar o alcance da mobilidade global.

A conectividade está deixando de ser um serviço disponível apenas onde alguém decidiu instalar infraestrutura e caminha para se tornar uma capacidade praticamente onipresente — acessível em qualquer ponto do planeta, independentemente de geografia ou densidade populacional.

Assim como a privatização redefiniu o setor no fim do século passado e o smartphone reorganizou a economia digital neste século, as constelações de satélites em órbita baixa têm potencial para abrir a próxima era das telecomunicações: uma era em que estar conectado deixa de ser uma questão de onde se está.

*Alex Araújo

Economista e ex-scretário de Desenvolvimento Local do Ceará.

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