“A tensão constante como estratégia de poder” – Por Luiz Henrique Campos

Trump entre ameaças a blefes. Foto: Reprodução

Com o título “A tensão constante como estratégia de poder”, eis o título da coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Para países emergentes, como o Brasil, esse cenário costuma trazer mais riscos do que oportunidades. Instabilidade internacional significa volatilidade cambial, retração de investimentos e maior vulnerabilidade econômica. Curiosamente, apesar disso, parcela expressiva da sociedade brasileira manifestou entusiasmo e apoio político a Trump ao longo dos últimos anos”,. expõe o colunista.

Confira:

Durante sua trajetória política, o presidente americano Donald Trump construiu parte relevante de sua narrativa apresentando-se como o líder capaz de romper com a tradição intervencionista dos Estados Unidos. Em seus discursos, repetiu à exaustão a promessa de evitar novas guerras e de encerrar aventuras militares que, segundo ele, custaram caro demais ao povo americano.

A mensagem era simples, direta e politicamente eficaz, propondo menos guerras e mais pragmatismo. O problema é que a política internacional raramente cabe na simplicidade de slogans de campanha. Na prática, ao mesmo tempo em que criticava guerras prolongadas, Trump cultivava a retórica agressiva contra adversários estratégicos dos Estados Unidos.

Entre ameaças veladas e demonstrações de força, países como Venezuela e Irã tornaram-se alvos constantes de pressão política, econômica e militar, sem falar de Cuba e México só para ficar aqui na América. No caso venezuelano, a possibilidade, ainda que muitas vezes apresentada como retórica, de intervenção, sempre pairou como sombra sobre a região.

Já em relação ao Irã, a combinação de sanções econômicas duríssimas com sucessivos episódios de tensão militar transformou o Oriente Médio em barril de pólvora permanente. É aí que surge o paradoxo. Promete-se paz, mas governa-se sob a lógica da escalada. Esse tipo de postura alimenta instabilidade que, mesmo quando não se converte em guerra aberta, mantém o mundo em estado permanente de alerta. E mercados odeiam incerteza.

Cada ameaça, cada movimento militar ou cada rodada de sanções se traduz rapidamente em nervosismo nos mercados globais. O preço do petróleo oscila, cadeias produtivas sentem o impacto e investidores correm para ativos considerados mais seguros. A economia mundial passa a conviver com espécie de guerra fria difusa, na qual o conflito não explode, mas nunca desaparece do horizonte.

Para países emergentes, como o Brasil, esse cenário costuma trazer mais riscos do que oportunidades. Instabilidade internacional significa volatilidade cambial, retração de investimentos e maior vulnerabilidade econômica. Curiosamente, apesar disso, parcela expressiva da sociedade brasileira manifestou entusiasmo e apoio político a Trump ao longo dos últimos anos.

Para esses grupos, o presidente americano simbolizava reação ao que consideravam excessos da diplomacia tradicional e da política multilateral. Mas há ironia evidente nesse alinhamento. Ao celebrar liderança cuja política externa se move frequentemente no limite da pressão militar e econômica, parte do público brasileiro acaba apoiando estratégia que tende justamente a ampliar as tensões globais, e, por consequência, os riscos para economias frágeis e dependentes de estabilidade externa.

No fim das contas, a promessa de paz continua sendo poderosa ferramenta retórica. Mas governar o mundo real exige lidar com forças muito menos previsíveis do que aquelas que cabem no palanque. E talvez resida nisso as marcas mais evidentes da política contemporânea, onde líderes chegam ao poder prometendo evitar guerras, mas, na prática, mantêm o planeta permanentemente à beira delas.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

Luiz Henrique Campos: Formado em jornalismo com especialização em Teoria da Comunicação e da Imagem, ambas pela UFC, trabalhei por mais de 25 anos em redação de jornais, tendo passando por O POVO e Diário do Nordeste, nas editorias de Cidade, Cotidiano, Reportagens Especiais, Politica e Opinião.

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