Com o título “A velha e a nova indústria no Ceará”, eis artigo de Marcos C Holanda, PhD em Economia, ex-presidente do Banco do Nordeste e fundador do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). “A nova indústria não será medida apenas pelo número de fábricas, mas pela capacidade de capturar renda, atrair talentos e gerar serviços sofisticados. Se a velha indústria competia por incentivos fiscais, a nova competirá por qualidade de vida. Se antes buscávamos custo baixo, agora precisamos oferecer valor alto”, expõe o articulista.
Confira:
Durante décadas, a política industrial do Ceará foi marcada por uma estratégia clara: atrair empresas por meio de generosos incentivos fiscais. Funcionou no seu início e em consequência vieram fábricas de calçados, têxteis e alimentos e a geração de empregos formais cresceu. Mas o modelo tinha limites estruturais.
A velha indústria foi ancorada em setores tradicionais, intensivos em mão de obra e de baixo valor agregado. Criou ocupações, sim — mas, em sua maioria, ao redor de um salário mínimo. Não conseguiu formar cadeias tecnológicas sofisticadas nem internalizar etapas mais complexas de design, marca e inovação.
Com a ascensão da China como potência manufatureira global e, mais recentemente, com a revolução da IA a pressão sobre esse modelo tornou-se avassaladora. A competição asiática reduziu margens na indústria tradicional, a automação e a IA comprimem ainda mais a vantagem do trabalho barato. O que antes era apenas frágil agora se torna obsoleto.
Mas o Ceará não está condenado à irrelevância industrial. Ao contrário, novos vetores emergem.
O primeiro é a indústria da energia abundante e competitiva. A combinação de eólica, solar e gás natural posiciona o estado em posição promissora na oferta de energia limpa e relativamente barata. A energia deixou de ser apenas um insumo e passou a ser um ativo estratégico. Quem tem energia tem IA, quem tem IA domina a dinâmica econômica futura.
O segundo vetor — e talvez o mais transformador — é a indústria do bem-estar. Turismo, esportes, segunda residência, saúde, lazer e gastronomia compõem uma economia voltada à experiência, à qualidade de vida e ao clima. Trata-se de um setor menos replicável por máquinas e menos exposto à competição predatória global. Aqui, o Ceará possui vantagens comparativas naturais: sol o ano inteiro, ventos constantes, litoral extenso, hospitalidade reconhecida e, principalmente, somos uma região livre de eventos climáticos extremos e conflitos bélicos.
O símbolo dessa nova indústria pode estar na tese de que a Praia do Preá pode se transformar na “Aspen do kitesurf”. Assim como Aspen se tornou referência mundial em turismo de inverno de alto padrão, a Praia do Preá pode se consolidar como destino global premium de esportes à vela. Não se trata apenas de atrair praticantes, mas de
desenvolver um ecossistema completo: escolas, competições internacionais, hotéis de charme, gastronomia autoral, serviços de saúde, imóveis de alto padrão e uma cadeia de fornecedores locais qualificados.
A nova indústria não será medida apenas pelo número de fábricas, mas pela capacidade de capturar renda, atrair talentos e gerar serviços sofisticados. Se a velha indústria competia por incentivos fiscais, a nova competirá por qualidade de vida. Se antes buscávamos custo baixo, agora precisamos oferecer valor alto.
A velha indústria cumpriu seu papel histórico. A nova ainda está sendo desenhada. A diferença é que, desta vez, nossas vantagens não são artificiais — são naturais, energéticas, geográficas. O que precisamos de forma urgente é uma estratégia e planos para tomar proveito dessa oportunidade única.
*Marcos C. Holanda
PhD em Economia, ex-presidente do Banco do Nordeste e fundador do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).