“Afirmação e resistência como resposta digna ao preconceito” – Por Luiz Henrique Campos

Com o título “Afirmação e resistência como resposta digna ao preconceito”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta segunda-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “A verdadeira convivência democrática exige que rejeitemos o preconceito, seja ele explícito ou velado, e que vejamos no outro um igual, não um inimigo a ser derrotado”, expõe o colunista.

Confira:

Nos últimos anos, as eleições no Brasil têm escancarado fissuras profundas na convivência social. Um exemplo desse fato é o aumento de ataques contra nordestinos nas redes sociais. Uma pesquisa recente baseada em dados da SaferNet, ONG que defende os direitos humanos na internet, mapeou esse aumento durante os anos eleitorais, revelando que ofensas como “miserável”, “ingrato”, “burro” e “analfabeto” dispararam, chegando a um crescimento da ordem de 821% na última disputa presidencial em comparação com o ano anterior. Esse dado, além de chocante, não pode ser interpretado como mera “empolgação espontânea da internet”. Trata-se de reflexo de um ambiente político cada vez mais polarizado, em que adversários são vistos não como concorrentes de ideias, mas inimigos identificáveis por características sociais, culturais ou regionais.

É curioso notar, no entanto, que esse tipo de preconceito explícito contra nordestinos, uma forma de xenofobia interna ao Brasil, encontra pouca reciprocidade nos discursos de pessoas do Nordeste sobre sulistas. Raramente se ouve, por exemplo, nordestinos depreciando a cultura ou identidade do Sul do país com a mesma veemência. Diante dessa constatação, será que isso não diria mais sobre uma atitude de autoafirmação cultural e de origem do que sobre ausência de críticas legítimas à realidade social de outras regiões?

O povo nordestino, historicamente marcado por desigualdades, seca e negligência estatal, desenvolveu uma forte consciência de sua própria narrativa e de seu valor, afastando-se da armadilha de internalizar os ataques e transformá-los em ressentimento. É nesse exercício de afirmação e resistência que se encontra uma resposta mais digna ao preconceito. Por outro lado, é inevitável perguntar, o que é, afinal, o preconceito, senão um reflexo de inseguranças e de uma incapacidade de reconhecer no “outro” traços humanos que nos igualem?

A hostilidade voltada contra grupos, seja por região, classe social ou opção política, muitas vezes nasce da necessidade de se afirmar superior a algo que incomoda ou desafia a própria identidade. Na polarização política brasileira contemporânea, essa dinâmica tem sido exacerbada por algoritmos de redes sociais e estratégias de comunicação que amplificam emoções fortes, muito mais que argumentos racionais. Esse cenário demonstra que a polarização política no Brasil não é só um desacordo sobre políticas públicas ou preferências partidárias. Ela está carregada de afeto negativo e hostilidade, transformando adversários em alvos, e regionalidade em motivo de desprezo.

Enquanto continuarmos a ver seres humanos, sejam nordestinos, sulistas ou qualquer outro grupo, como representantes de todo um conjunto de estereótipos, estaremos perdendo a oportunidade de construir um debate político que respeite a diversidade e fomente a empatia. A verdadeira convivência democrática exige que rejeitemos o preconceito, seja ele explícito ou velado, e que vejamos no outro um igual, não um inimigo a ser derrotado. Enquanto isso não acontece, por aqui, no nosso Nordeste, continuamos abertos a receber quem nos deseje visitar e conhecer. Mas não esqueçam, antes de vir, que por aqui, terão um povo que acolhe, mas se respeita, porque somos diferentes, e quem é diferente, se orgulha de sê-lo, pois não precisa imitar ninguém.

*Luiz Henriuqe Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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