“Algumas observações, antes da abertura das urnas” – Por Nicolau Araújo

Nicolau Araújo é jornalista

“A polarização no Brasil foi erguida na base do ódio, da desconfiança, da pequenez, na desconstrução do adversário. E o eleitorado despolitizado serviu como matéria-prima para tal estrutura”, aponta o jornalista Nicolau Araújo

Confira:

Quando a contagem de votos ao governo do Ceará for encerrada, no início da noite deste domingo, muitos ficarão surpresos com o resultado. De um lado ou do outro.

Quando a contagem de votos ao Senado pelo Ceará for encerrada, no início da noite deste domingo, muitos ficarão surpresos com o resultado. De um lado ou do outro.

De qualquer forma, o resultado será fruto da polarização, boa na teoria em termos de democracia, ruim na prática em termos de democracia.

É que a polarização no Brasil foi erguida na base do ódio, da desconfiança, da pequenez, na desconstrução do adversário. E o eleitorado despolitizado serviu como matéria-prima para tal estrutura.

Exemplo disso foi a torcida de milhares, talvez milhões, pela morte ou assassinato do presidente Lula, antes da diplomação de eleito na última votação. Depois, até mesmo no dia da posse, na ingenuidade dos incautos de um ato na frente de vários chefes de Estado, o que seria um atentado contra os próprios líderes de nações.

Outro exemplo é local. Indiferente de uma escolha acertada ou não, foi estranho o ex-ministro Ciro Gomes, em apenas dois anos, implodir toda a sua formação político-ideológica para abraçar adversários, muitas vezes tratados por ambas as partes como inimigos.

Mas Ciro é também o maior exemplo que a oposição no Ceará nunca de fato trabalhou um plano/projeto de governo, pois um novato no grupo oposicionista jamais assumiria a liderança em tão pouco tempo, inclusive tendo tomado para si o discurso da segurança pública, há uma década como carro-chefe de Capitão Wagner.

E agora temos o segundo equívoco estratégico. Ao entregar o seu discurso a Ciro, Wagner ficou “dispensável” no imaginário do eleitor, pois, o que um senador poderia fazer pela segurança pública, que um governador não faça dez, vinte vezes mais?

Mas o discurso de Wagner era o que Ciro teria para jogar o jogo, mesmo tendo se exaurido na mesmice das críticas e na base da “porrada”. Nunca o discurso esteve associado a um plano de educação ou empreendedorismo para a juventude. Mesmo Wagner já posando de professor. Ciro também, professor de Direito. Ambos para a elite, não para os alvos da “porrada”.

E o equívoco de Wagner poderá resultar na eleição de Luizianne Lins, que também se precipitou ao deixar o PT pela Rede. A Lora (não gosta do tratamento carinhoso e respeitoso de Loirinha) perdeu a bandeira de “Luizianne é do PT”. Sorte o outro lado não ter um estrategista competente para trabalhar que Luizianne quer mostrar ser maior que o PT.

Ainda com relação ao Senado, o Pastor Alcides, já fora da disputa, segundo todas as pesquisas de intenções de voto, foi vítima do golpe do próprio filho, o deputado federal André Fernandes, que tirou o mandato do pai de deputado estadual para eleger os “seus”: Tancredo e alguma coisa Junior. André poderá mandar e desmandar nos dois prováveis deputados, quando havia um desconforto de hierarquia familiar para mandar no pai Alcides. Não há como alguém com mandato de menor atuação, eleger outro para mandato de maior atuação. Deputado estadual não elege governador. Vereador não elege prefeito. Deputado federal não elege senador.

Cid Gomes poderia ter se saído melhor, caso não tivesse ainda traumatizado pelo irmão Ciro. O senador não soube jogar de volta para o irmão a questão do “traíra”. Qualquer publicitário de último semestre em uma fácil-fácil tiraria nota 10 no trabalho de classe em devolver a Ciro a questão do “traíra”. Mas Cid não precisa de um bom marqueteiro, e sim de um terapeuta. Se já tiver, troca o profissional.

Para não dizer que não falei de flores, o governador Elmano também teve seus equívocos, quando o PT segue na dificuldade de pedir ajuda a aliados, como forma de não correr risco de comprometimento político. É o PT acreditando que resolve tudo sozinho.

E Ciro cresceu nos equívocos do PT, não nas dancinhas de André Fernandes, quando o “tiozão” com cinco refeições garantidas diariamente e moradia de luxo anima um monte de jovens que nunca foram beneficiados em 10 anos de mandatos parlamentares de André, mas que sustentam toda a estrutura do deputado.

Elmano e o PT apostaram em pseudo lideranças, pelo simples fato de uma cadeira de prefeito ou de uma votação que não reproduziu a realidade. E isso acontece quando o PT decide sair de sua própria caixa…

Nicolau Araújo é jornalista pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Marketing Político e com passagens pelo O POVO, DN e O Globo, além de assessorias no Senado, Governo do Estado, Prefeitura de Fortaleza, coordenador na Prefeitura de Maracanaú, coordenador na Câmara Municipal de Fortaleza e consultorias parlamentares. Também acumula títulos no xadrez estudantil, universitário e estadual de Rápido

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