“As pesquisas encomendadas pelo sistema financeiro favorecem a desestatização em favor do que a bancocracia enaltece: a eficiência privada”, aponta o jornalista César Fonseca
Confira:
Dá para desconfiar que há intenção política por trás da constatação apurada em pesquisa contratada pela Federação Nacional dos Bancos (Febraban) ao sociólogo Antônio Lavareda: o brasileiro não acredita no governo como influente em sua vida.
Mais uma casca de banana para o presidente Lula escorregar?
Descartar o governo seria uma alternativa para melhorar a vida da sociedade, induz a pesquisa contratada pela Febraban.
Seria essa ou não a conclusão das intenções que estão por trás dos interesses do mercado financeiro, quando o novo cenário protecionista aponta para o nacionalismo em negação ao neoliberalismo especulativo?
O que mais deseja a bancocracia senão esvaziar o governo como gestor de poderosos interesses financeiros, como, por exemplo, grandes empresas estatais, tipo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras e etc?
Liquidar essas empresas, privatizando-as para serem geridas pelo setor privado, pelos bancos, oligopólios financeiros, fundos de investimentos associados a inumeráveis segmentos capitalistas nacionais e internacionais, etc, eis o que interessa ao capital oligopolizado no cenário da financeirização.
A superacumulação capitalista financeira, como ressala a economista Juliana Furno, da UFRJ, busca fugir da lei geral da queda tendencial da taxa de lucro, característica do próprio processo de sobreacumulação de capital, como mostra Marx, em O Capital
Tal fuga vai ao encontro das áreas dominadas pelo Estado como aquelas destinadas à oferta de serviços de energia, água, saneamento etc.
Esses são os alvos principais.
Trata-se de ativos já amortizados que não requerem maiores investimentos, mas, apenas, manutenção na oferta de serviços, remunerados por tarifas públicas, para uma demanda garantida.
A privatização desses setores dá aos empresários a liberdade de comandar os preços, puxando-os sempre acima da inflação.
Obtêm, portanto, superlucros.
Combatem, dessa forma, a queda tendencial da taxa de lucro nos setores que enfrentam concorrência, para aqueles que dominam em forma de oligopólios.
O controle frouxo do Estado sobre os preços de serviços privatizados, garantido pelo regime neoliberal, facilita tudo, para os interesses oligopólios, que têm ampla influência na política e nas instituições que regulam as relações econômicas.
Assim, quanto mais a população vê no Estado não a solução, mas o problema, para melhorar a qualidade de vida, como sugere a pesquisa da Febraban, mais os capitalistas conseguem fugir da queda tendencial da taxa de lucro, comprando ativos estatais na bacia das almas.
Construção do sentimento popular – As pesquisas, encomendadas pelo sistema financeiro com o objetivo de captar o sentimento popular quanto à ineficácia do Estado para a sociedade favorecem a desestatização em favor do que a bancocracia enaltece: a eficiência privada.
Afrouxa-se psicologicamente a resistência social para preservar os ativos públicos sob gestão do Estado como defendem os nacionalistas.
Privatizar educação, saúde, assistência social, com estímulo fiscal e financeiro, inclusive, de agências financeiras estatais, passa a ser visto como aceitável e necessário.
A alienação da consciência social cresce no compasso das pesquisas financiadas pelo mercado financeiro para vender a verdade de que o Estado é ineficiente.
Pesquisa conduzida pelo interesse financeiro, portanto, induz à privatização, no cenário neoliberal.
Como dizia Millôr Fernandes, opinião pública é opinião publicada.
Eis em síntese a dialética da indução da opinião pública a favorecer a destruição do interesse social em favor do interesse privado.
César Fonseca é repórter de política e economia, editor do site Independência Sul Americana