“Arquitetura-Contêiner” – Por Joquim Cartaxo

Joaquim Cartaxo é o superintendente do Sebrae/CE. Foto: Tapis Rouge

Com o título “Arquitetura-Contêiner”, eis artigo de Joaquim Cartaxo, arquiteto urbanista e superintendente do Sebrae do Ceará. “A disseminação dessa arquitetura consolida o desenho da cidade-contêiner, revelado pelos condomínios residenciais intramuros, verticais ou horizontais, e pelos shoppings centers. Por efeito, as áreas localizadas entre esses condomínios e shoppings tendem a deteriorar-se, como é o caso do centro antigo e de centralidades lineares na cidade”, expõe o articulista.

Confira:

O edifício, objeto predominante na paisagem urbana, foi definido pelo arquiteto Edgar Graeff como “o produto mais característico da arquitetura”, que se relaciona com a sociedade por meio dos elementos forma, função e significado.

Para Graeff, o edifício delimita, organiza e anima o espaço edificado (interno) e o espaço urbano (externo), resultante da relação com árvores, praças, ruas, calçadas e as outras edificações. O desenho do edifício e de sua implantação impõe determinada configuração ao espaço urbano, produto de um ato intencional. Afinal, como disse Vilanova Artigas, “ninguém desenha pelo desenho.

Para construir igrejas há que tê-las na mente, em projeto. Que catedrais tendes no pensamento?”. Desde o renascimento, o desenho firmou-se como técnica e arte simultaneamente. Instrumento prático e intelectual que torna visíveis ideias arquitetônicas sobre os edifícios, monumentos, praças, parques, ruas, calçadas – antes existentes apenas na imaginação – que constituem o espaço urbano.

Em Fortaleza, os chamados “edifícios super altos”, de construção recente em determinados bairros, estão impondo nova configuração ao espaço urbano, cuja tendência é “matar” as ruas, com paredões que vedam os primeiros pavimentos dos prédios, sem considerar a escala humana da rua e suas calçadas. Sobre estes pavimentos destinados aos automóveis, erguem-se torres de uso residencial ou de serviços. São “contêineres” urbanos, apartados da sua circunvizinhança.

A disseminação dessa arquitetura consolida o desenho da cidade-contêiner, revelado pelos condomínios residenciais intramuros, verticais ou horizontais, e pelos shoppings centers. Por efeito, as áreas localizadas entre esses condomínios e shoppings tendem a deteriorar-se, como é o caso do centro antigo e de centralidades lineares na cidade.

Essa configuração urbana rompe com o modelo tradicional de cidade na qual as ruas e as calçadas possuem vitalidade por conta da presença de atividades diversas que atraem a circulação de pessoas. A arquitetura-contêiner elimina essas atividades, desestimula a movimentação de pessoas e a interação com os espaços urbanos, ao tempo em que intensifica a segregação e fragmentação socioespacial.

*Joaquim Cartaxo

Arquiteto urbanista e superintendente do Sebrae do Ceará.

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