Com o título “Arquitetura é escolha”, eis artigo de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico. “Arquitetura não é reprodução, é interpretação: escuta o território, a cultura, a técnica e as pessoas para responder ao presente, não para repetir imagens”, expõe o articulista.
Confira:
Toda arquitetura nasce de uma escolha. Quando essa escolha ignora o lugar, a cultura e os modos de viver, o edifício pode até se impor no lote, mas fracassa naquilo que realmente importa: construir cidade.
A chamada arquitetura do “copia e cola” se apresenta como um exercício de repetição acrítica. Referências são arrastadas de seus contextos originais e reaplicadas sem mediação cultural, técnica ou urbana. O resultado é um objeto edificado que finge pertencimento histórico ou sofisticação formal, mas carece de coerência construtiva, vínculo com o lugar e compromisso com o tempo presente.
Quando associada ao kitsch, essa prática se apoia no abuso ornamental, na teatralidade superficial e na busca por impacto imediato. O projeto, enquanto reflexão, dá lugar a uma colagem de signos reconhecíveis. Elementos construtivos passam a operar como adereços, apartados de qualquer lógica estrutural ou espacial. A arquitetura se míngua, então, a cenário.
No plano urbano, o “copia e cola” empobrece a leitura da cidade: ignora clima, escala, memória e modos de viver, substitui o diálogo com o entorno por fórmulas de catálogo e troca densidade simbólica por ruído visual.
Arquitetura não é reprodução, é interpretação: escuta o território, a cultura, a técnica e as pessoas para responder ao presente, não para repetir imagens.
Superar a arquitetura do “copia e cola” é reafirmar o projeto como ato intelectual e ético. É reconhecer que construir não se resume a erguer formas, mas a produzir sentido, qualidade espacial e pertencimento. Sem isso, o edifício pode até ocupar o lote, mas não constrói cidade. Apenas a imita.
Nesse contexto, a arquitetura produzida no Ceará não deve ser cópia nem adaptação tardia de modelos alheios. Ela deve nascer da criatividade como linguagem estruturante e se afirmar em projetos com personalidade, rigor formal e compromisso com a realidade local. Forma e função, aqui, não são recursos retóricos. São respostas diretas ao clima, ao território e aos modos de viver.
Quando os conceitos são verdadeiramente nossos, deixam de ser opção estética e passam a ser posicionamento. Criar espaços humanizados, culturalmente enraizados e socialmente responsáveis não é concessão. É dever.
Negar nossa bagagem inventiva e sustentável fragiliza a arquitetura e empobrece a cidade; defendê-la é afirmar identidade, ética projetual e a escolha de construir sentido, não apenas edifícios.
Arquitetar no Ceará exige identidade, responsabilidade e coragem. O resto é repetição. É imitação.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico