“É impossível dissociar essas consequências das escolhas feitas pelo governo que está à frente do Estado de Minas Gerais. (…) Tragédias não surgem do nada. São, muitas vezes, o resultado acumulado de omissões, cortes, adiamentos e desprezo pela prevenção”, aponta o jornalista Luiz Henrique Campos
Confira:
Seja na vida pessoal, na iniciativa privada ou na gestão pública, a tomada de decisão é exercício que se move por conceitos, valores e visão de mundo. Nenhuma escolha é neutra. Toda decisão carrega consequências, e elas quase sempre, se manifestam no futuro, quando já não é mais possível fingir que nada aconteceu. Por isso, gerir é fazer opção.
Na vida pública, isso se torna mais evidente. Governar é escolher prioridades. Priorizar onde investir, o que cortar, o que fortalecer e o que abandonar. E é justamente por isso que causa indignação quando governantes tentam se eximir das responsabilidades por decisões que o tempo confirma como equivocadas. Tragédias não surgem do nada. São, muitas vezes, o resultado acumulado de omissões, cortes, adiamentos e desprezo pela prevenção.
O que se viu recentemente na Zona da Mata Mineira expõe essa lógica de forma cruel. Não se trata apenas de chuvas intensas ou de eventos climáticos extremos. Trata-se da ausência de políticas públicas estruturais, de investimentos contínuos em prevenção, de planejamento urbano e de proteção das populações mais vulneráveis. Quando a prevenção é tratada como gasto supérfluo, o desastre deixa de ser exceção e passa a ser parte do modelo de gestão.
É impossível dissociar essas consequências das escolhas feitas pelo governo que está à frente do Estado de Minas Gerais. Cortes em políticas de prevenção, como atestam reportagens publicadas pela imprensa, baixa execução de recursos disponíveis e priorização de outras agendas não são acidentes administrativos. São decisões políticas. E decisões políticas produzem efeitos concretos na vida real.
Vivemos tempos em que figuras públicas passam mais tempo nas redes sociais buscando se projetar como influenciadores do que assumindo o peso institucional de governar. A política vira performance, narrativa, marketing. Mas o barro que desce das encostas, a água que invade casas e as vidas que se perdem não são virtuais, são reais, materiais, irreversíveis.
Não se pode normalizar a lógica de que tragédias são apenas “fatalidades”. Quando o Estado escolhe não investir em prevenção, escolhe aceitar o risco. Quando corta recursos, escolhe vulnerabilizar. Quando ignora alertas técnicos, escolhe apostar no acaso. E essa aposta invariavelmente recai sobre os mesmos, os mais pobres, os que vivem em áreas de risco, os que não têm para onde correr.
Gerir é, sim, fazer escolhas. Mas governar é assumir as consequências delas. Fugir dessa responsabilidade é transformar a gestão pública em espetáculo vazio, enquanto o preço continua sendo pago pelos mesmos corpos, pelas mesmas casas e pelas mesmas comunidades.
Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar