“Vimos o fim de 2025 marcado por uma ordem feita de sombras e incertezas, muitas delas mediadas por plataformas digitais que, sob a lógica dos algoritmos, continuaram enfatizando discursos extremos e sensacionalistas”, aponta a jornalista Suzete Nocrato
Confira:
A mudança de ano costuma alimentar a esperança de que finalmente passemos a viver nossa humanidade de forma mais ética, plena e compassiva. Falamos em empatia, compreensão e cuidado, enquanto seguimos enfrentando as mesmas lutas diárias, as nossas imperfeições, num zigue-zague de (in)decisões. Carregamos nas mensagens nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais o desejo de paz, de respeito e de amorosidade. No entanto, os primeiros dias de 2026 já se apresentam desafiadores — lembrando-nos de que a mudança não acontece apenas com a virada do calendário.
Vimos o fim de 2025 marcado por uma ordem feita de sombras e incertezas, muitas delas mediadas por plataformas digitais que, sob a lógica dos algoritmos, continuaram enfatizando discursos extremos e sensacionalistas. Nesse ambiente intoxicado, as fake news ganharam velocidade e o debate público se degradou.
Com quase quatro décadas dedicadas ao jornalismo, observei com tristeza e decepção as polêmicas que envolveram segmentos da imprensa brasileira, que, em nome da preservação de privilégios, ensaiaram flertes perigosos contra a democracia. Ao fabricar narrativas fantasiosas, frequentemente amparados por fontes “em off”, uma jornalista não apenas comprometeu a credibilidade da informação, mas também feriu a dignidade e a memória de quem lutou — e ainda luta — pela responsabilidade e pela qualidade do ofício de informar. Como bem lembrou o colega Moacir Maia, se tivesse sido aluna da mestra Adísia Sá (eu fui), conheceria a ética no jornalismo, “única maneira de olharmos com coragem nos olhos de nossos leitores”.
Os acontecimentos do ano passado revelam uma realidade adoecedora, que aprofundou a exaustão e a sensação de impotência. Ainda assim, com o prenúncio de um novo ciclo, a esperança voltou a nos habitar. Não tardou, porém, para que a confiança fosse novamente abalada: uma nuvem de dúvidas pairou sobre nossas cabeças, trazendo consigo o temor de que tempos sombrios voltem a se avizinhar.
No terceiro dia de 2026, presenciamos, estarrecidos, a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em uma ação militar ilegal. O imperialismo escancarado de Donald Trump revela a lógica brutal da força: transformar a América Latina em colônia norte-americana. Dessa forma, os países da região ficam impedidos de decidir seu destino político, de definir o uso de suas riquezas
naturais, com quem manter relações diplomáticas e comerciais, e de construir o seu próprio futuro. Ou seja, a América Latina perde sua soberania.
E a tão sonhada paz segue distante no horizonte. Os conflitos armados que atravessam o continente africano continuam a produzir violência e instabilidade; a guerra entre Rússia e Ucrânia recrudesce a cada dia; a Faixa de Gaza permanece sob sucessivas ofensivas de Israel, que atinge duramente o povo palestino, seja pelas armas, seja pelo cerco que aprofunda a fome e escassez; e agora os olhos da ave de rapina se voltam para nós, latino-americanos.
Apesar do quadro sombrio, acredito que essa situação é uma transição para um mundo de harmonia e respeito à natureza, de igualdade social, onde o homem voltará seu olhar de compaixão para os que sofrem, vivenciando o amor em sua plenitude. Essa travessia pode ser em marcha lenta ou avançaremos mais rapidamente, depende de cada um individual e coletivamente.
Assim, as incertezas de 2026 nos colocam diante de escolhas que definirão qual a vida teremos: podemos nos deixar vencer pelo desencanto e aceitar o avanço da força, do silêncio cúmplice e da barbárie, ou, com inteligência e sentido de sobrevivência sustentaremos, com coragem, a defesa da democracia, da soberania dos povos e da dignidade humana.
Mantenho firme a esperança no futuro.
Suzete Nocrato
Jornalista e Mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará – UFC