Com o título “As Mesinhas”, eis mais um texto legal de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
(Para Beatriz Diógenes)
Confira:
Voltando às mesinhas da antiga Avenida Beira Mar de Fortaleza, lembro um tempo da cidade tendo o mar como lugar de encontro, conversa e boemia. Espalhadas pela calçada, eram um jeito de viver a cidade.
Bem observado pelo amigo José Cordeiro, Vasquinho tinha suas mesinhas na calçada descalça, do lado da praia, na Beira-Mar, pelas bandas da Volta da Jurema.
No seu ponto, tinha de tudo: churrasqueira para o enfarofado espetinho de gato; tambor com gelo para a cerveja; bacia de flandres para lavagem de copos e pratinhos; latas d’água; os apetrechos da tradicional caipirinha de limão; e até um ciscador, usado para exumar os cascos sepultados pelos metidos a sabido.
As mesas eram de madeira, tábuas espaçadas, pintadas e escapeladas pelo uso. À noite, sob a luz âmbar dos postes e o clarão da lua, pareciam ganhar outra vida. O vento trazia a maresia, misturada ao cheiro da brasa, da cerveja gelada e do limão espremido na caipirinha. Ao redor, papos, risadas e o mar inteiravam a cena.
As cadeiras, também de madeira, em sua maioria eram de réguas, de desenho reto. Algumas tinham estrutura dobrável, de abrir e fechar, com alto risco de torar um dedo da mão de algum desavisado.
A trilha sonora se espalhava pelo trajeto cobrejado da calçada, onde se aninhava aquela boemia. Ia dos carros de portas abertas, com toca-fitas e amplificadores potentes, aos artistas da noite, quase todos violonistas. Mais adiante, vinham os autorais, reunindo um público mais cultural.
Uns iam só fazer a base e se mandar, seguindo a noitada por outros cantos. Outros, para ficar. Mas lá era ponto de vai e volta dos indecisos entre ficar e partir.
As mesinhas criaram um estilo de comportamento. De pensar. De ser. Aquelas bandas abraçavam quem mostrava, no jeito de viver, tanto o aparente quanto o verdadeiro. Todos se amostravam do seu jeito. Faziam de conta estar adiante do próprio tempo. Alguns, nem tanto. As moedas eram várias.
Na calçada da Beira-Mar, as mesinhas eram lugar descolado da juventude sabedora da vivência raiz fortalezense. A cidade, depois de tanto tempo de costas para o mar, virava-se para ele. Novos tempos. Um futuro chegando, hoje já passado.
Fortaleza é uma cidade boa de se viver. Tanto é, chega a dar uma saudade danada da vida de antigamente. Saudade também ensina: olhar o passado para melhorar o futuro. Depois dessa, espiarei a Constelação Quinta do Caranguejo, sob a poética espacial da Praia do Futuro.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.